29 de setembro de 2009

Pisces





Abaixo do sol existe um outro planeta que se chama Vênus. É muito brilhante, claro e com reflexos luminosos, seco e frio por natureza (...). Vênus é a mais brilhante dentre as estrelas. É benevolente, doce e benfazeja. Interrompe e tempera a malícia de Saturno e todo outro malefício dos planetas. Brilha quando o sol corre no signo de Touro, e também quando ele se encontra em Libra, isto é, na balança, no mês de setembro. (...) As crianças nascidas sob seu signo parecem-se em muitos pontos aos filhos de Júpiter. São brilhantes, claros, graciosos e de aspecto alegre, amáveis, distinguidos e livres em suas maneiras, de um natural fervente e cheio de humor, o que os torna facilmente impuros e gulosos, inclinados a todos os prazeres desordenados e aos desejos dos sentidos. Temem o ódio e a inveja e, tanto quanto lhes é possível, estabelecem a paz e a concórdia entre os homens.

As doze benignas, cap. XLII (Ruysbroeck citado em "Roteiro de Deus")


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Segundo o mito, Vênus e seu filho Cupido tomaram a forma de peixes para fugir de Tifão, monstro, meio homem, meio animal, nascido da Terra e do Tártaro, e que ameaçou os deuses do Olimpo (...). Vênus e Cupido esconderam-se sob a forma do peixe, Pisces, para escapar das forças elementares, primitivas e desordenadas da terra, que ameaçavam o reino luminoso, ordenado e racional dos deuses do Olimpo - uma luta entre a escuridão da terra e a luz do céu.

(n'o roteiro de deus, página, 507)

27 de setembro de 2009

26 de setembro de 2009

Amor volat



Não, não é comigo que ele nasceu... A sua asa
Só a um tempo ruflou desse modo, tamanho!
Bateu-me o coração... E outro não sei que, estranho,
Rudamente o rasgou como o seu bico em brasa...

Entrou-mo todo, enfim, como quem entra em casa
E em meu sangue, a cantar, fez de um boêmio no banho!
Oh! que pássaro mau! E eu nunca mais o apanho!
Vês: estou velho já. Treme-me o passo, e atrasa...

Olha-me bem, no peito, o rubro ninho aberto!
Hoje, fúnebre, a piar, uma estrige ao telhado
E o meu seio vazio! e o meu leito deserto!

E vivo só por ver, como curvo aqui fico,
Esse pássaro voar, largamente, um bocado
De músculos pingando a levar-me no bico!

Pedro Kilkerry
(1885-1917)

* imagem roubada da aline

25 de setembro de 2009

O ornamento do casamento espiritual

[Jan Van Ruysbroeck]


Quando o homem faz tudo o que pode e sua própria fraqueza impede-o de ir mais além, a infinita misericórdia de Deus deve completar a obra. Então aparece uma luz mais alta de graça divina, semelhante a um raio de sol que entra na alma, sem mérito de sua parte e sem que ela possa desejar algo de tão elevado; pois nesta luz. É Deus que se dá, com toda bondade gratuita e liberalidade, ele, que criatura alguma pode merecer antes de possuir. E acontece na alma, instantaneamente, uma operação misteriosa de Deus, que a move toda, ela e suas faculdades. Aqui não se trata mais de graça previdente, mas inteiramente de outra graça, que é luz sobrenatural.


O ornamento do casamento espiritual, livro I, cap. I.


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Algumas vezes Deus suscita no espírito um fulgor rápido, algo como um raio no céu. É um curto jato de luz, de uma claridade ofuscante, que jorra na nudez simples. Num piscar de olhos o espírito é elevado acima de si mesmo, e, imediatamente, a luz deixa de existir, e o homem volta a si. Esta é uma obra do próprio Deus, e algo de muito nobre, pois, aqueles que são objetos dela tornam-se freqüentemente homens iluminados.

Aqueles que são tomados pelo ardor do amor sentem-no, algumas vezes, de uma outra maneira, pois neles brilha uma certa luz que Deus produz por intermediários; e sob esta influência o coração e a faculdade afetiva vão ao encontro da luz, e, quando se dá este encontro, a avidez e a fruição são tão grandes que o coração não os pode suportar, mas explode em tons impetuosos, e isto chama-se júbilo, isto é, uma alegria que não podemos exprimir em palavras. Somos, aliás, incapazes de contê-la e, no momento em que encontramos a luz com um coração que se eleva em sua direção e se abre grandemente, a voz deve seguir-se necessariamente, enquanto durar este estado e este gênero de luz. Certos homens interiores recebem, por vezes, de seu anjo da guarda ou de outros anjos, por via de sonhos, muitos ensinamentos úteis.


O ornamento do casamento espiritual, livro II, cap. XXIV


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Ora, vocês sabem que todo encontro consiste na união de duas pessoas que vêm de lugares diferentes, opostos e separados. O Cristo vem do alto como um senhor que dá com liberalidade e que é todo-poderoso. E nós vimos de baixo, como pobres servidores que não têm poder por si mesmos, mas indigentes em tudo. E enquanto o Cristo vem a nós do interior para o exterior, nós vimos a ele do exterior para o interior; e deste modo deve fazer-se um encontro espiritual.


O ornamento do casamento espiritual, livro II, cap. LVI


Jan Van Ruysbroeck, In: VILHENA, Araujo. O Roteiro de Deus: dois estudos sobre Guimarães Rosa.

24 de setembro de 2009

Mesmo que o céu não exista




Nós somos prisioneiros do futuro e de nossos sonhos: de tanto esperar amanhãs que cantem, perdemos o único caminho real, que é o de hoje. No entanto é preciso viver e lutar: partir para o assalto ao céu, mesmo que esse céu não exista. Precisamos inventar uma sabedoria para o nosso tempo.



[Tratado do Desespero e da Beatitude, André Comte-Sponville - nunca pensei que fosse gostar tanto de um filósofo materialista... a imagem é do casal parkeharrison]

22 de setembro de 2009

Na véspera do tempo


O bom do caminho é haver volta.
Para ida sem vinda basta o tempo.

Curozero Muando

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Olhamos a estrela como olhamos o fogo.
Sabendo que são uma mesma substância,
apenas diferindo na distância
em que a si mesmos se consomem.

Tia Admirança

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Eis o que aprendi
nesses vales
onde se afundam os poentes:
afinal tudo são luzes
e a gente se acende é nos outros.
A vida é um fogo.
Nós somos suas breves incandescências.

Fala de João Celestino ao regressar do outro lado da montanha.

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[Mia Couto: Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra]

9 de setembro de 2009

Tio Abstinêncio


O Tio Abstêncio, este que cruza o rio comigo, sempre assim se apresentou: magro e engomado, ocupado a trançar lembranças. Um certo dia, se exilou dentro de casa. Acreditaram ser arremesso de humores, coisa passatemporária. Mas era definitivo. Com o tempo acabaram estranhando a ausência. Visitaram-no. Sacudiram-no, ele nada.

─ Não quero sair nunca mais.

─ Tem medo de quê?

─ O mundo já não tem mais beleza.

Como aqueles amantes que, depois de zanga, nunca mais se querem ver. Assim era o amuo do nosso tio. Que ele tinha tido caso com o mundo. E agora doía-lhe demais a decadência desse rosto de quem amara. Os outros riram. O parente sofria de tardias poesias?

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Mia Couto, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra.

(tô gostando! bem que me disseram que ele tinha algo de Guimarães Rosa...)