Mostrando postagens com marcador A vida também é para ser lida.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A vida também é para ser lida.. Mostrar todas as postagens

19 de novembro de 2008

Se eu seria personagem


[Guimarães Rosa]


Sou antigo. Onde estão os cocheiros e os arcediagos?

Vou ao que me há de vir, só, só, próprio (...). O tempo é que é a matéria do entendimento (...). O amor não pode ser construidamente.

A hora se fazia pelo deve & haver dos astros, não aliás e talvez. Tanto sabe é quem manda; e fino o mandante.

Sim sofri; como o músico atrás dos surdos ou o surdo atrás dos dançantes.

O amor se faz é graças a dois.

Sua minha alma (...). De dom, viera, vinha, veio-me, até mim. Da vida sem idéia nem começo (...).

Tem-se de a algum general render continência.

---

24 de outubro de 2008

Eros e Psiquê


"Se tu me disseres
Para deixar tuas ternas carícias
E ir rolar o corpo na neve gelada,
O prazer de meu corpo ainda aumentaria;
É mais prazeroso te dar prazer do que recebê-lo.
Teu amor me derrotou! Faz de mim o que quiseres,
E usa-me como uma serva que é tua!
Beija-me, pisa-me, acaricia-me ou me bate,
Enfia em meu peito forte dor até o punho,
Inventa o que mais for perversamente meigo."

(Patmore*)
_____________

* Li esse trecho no livro infinito, porém maravilhoso, do Peter Gay (A Paixão Terna - A Experiência Burguesa - da Rainha Vitória a Freud). Ah, queria que todos os historiadores escrevessem como ele... linda, linda análise do amor burguês, do ideal de paixão e afeto que permeava mentes e corações do século XIX. Ele escreve tão bem, tão delicadamente.. logo se vê que leu toda a literatura que cita. Aliás, que belas fontes! Livros, cartas, diários! Ah, deviam indicar livros dele na faculdade, não os soníferos assinados por Hobsbawm.

18 de outubro de 2008

E de resto, Glaura? Tem ido ao cinema?



[Rubens Rodrigues Torres Filho]


Arredondando as palavras
para dizer, por exemplo, que me ama,
sua boca explícita aprisiona irremediavelmente
este meu doce olhar,
que vai sonhando uma formação de beijos
aéreos em revoada para ninhos impossíveis. Divago, eu sei.
Perdoáveis como cascas de ovos, esses alheamentos
[momentâneos
não atrapalham tanto nosso relacionamento,
maduro, pausado,
idealizado de comum acordo para nos assentar tão bem.
Os pátios da academia nos verão passar amigos,
articulando aquele papo inteligente. Só às vezes
algum lampejar mais bobamente amoroso
bateria asas
" borboletreiramente "
anunciando às tontas um filme
prudentemente fora de cartaz.

_______________________________

CANTO SILENCIOSO

A ocasião chegou de estarmos sós
em uma cega calma.
Lentos fios desviram-se entre flores
que são lágrimas caindo do terraço
e amadurecendo
com paciência e luz. Quantas vezes
foram mãos servindo o café, lenta maldade
deslizando entre o tempo e a xícara.
São olhares tranqüilos, revestidos
de uma gentil malícia, de um redondo
desejo de ficar, de estar sempre ao alcance, de
ser uma rede ou um espelho
recolhendo teu rosto.
Todos esperam. Forma-se o séquito das nucas,
esperança minaz, gelo absurdo
para conservar as fases do bailado.
Uma alegria violenta
alimenta-se dos punhos, das entregas,
e são múltiplos caminhos que se enlaçam
com dor.

____________________

FIGURA

Esse sorriso justo, pontuado por vírgulas abstratas,
e no caminho, seguramente em cena, mira
o claro desejo: desmisturar-nos, por qual arte,
em meio a tanto. Mexer com esses relevos
subordinados ao fio da ausência. E o que se supõe
dispõe flores avulsas e laços de linguagem.

____________________________

retícula

Lentidão de outra face, elíptica
e singular. É com cuidado
que nossos desesperos vão folheando
as latitudes íngremes. Silêncio
e expansão. No colo das estrelas
um paradoxo sorridente hesita.
Sustos habituais, oscilações e álgebras
de espécie pouco usual
entrelaçavam seus sabores árduos.
Esfriarão as técnicas do acaso?
O halo, com vagar, se dividiu.


_____________________

LIGAÇÃO

Peço a obscura religião dos pássaros
ou o inexplicável talento para a tristeza
destas praças.

E choraremos juntos na tarde culpada
enquanto o sol morrer em nossas pálpebras
e a noite, inimiga e doce,
vier comer nossa memória.

___________________


CANTO DE RECEPÇÃO

No dia do retorno
estarei mansamente aqui
e meus olhos se abrirão como pétalas
para teu perfil desconhecido.
Lerei estranhas páginas de esquecimento
e, passante, deflagrarei
as palavras com que saudar-te.
Saberei rir: algo
me ensinarão as flores despertadas
e o barulho crescente das águas.
Direi teu nome em letras de mercúrio,
agasalhado em mil predições
e estourarei como uma fruta.
Darei teu nome aos vôos do vento,
às embarcações que preparam êxtases, aos
inexplicáveis marechais do horror.


...

16 de outubro de 2008

Noturno


[Roberto Piva]


Teus olhos não ficam bem senão em mim
Que desato o bouquet de tua angústia
Neste tempo de espera.
Sofres uma solidão recortada
Na tarde de tuas pálpebras
Absorto no retorno das nuvens
Magoadas de outros climas.
Só eu sei, silêncio de jade,
Flor da manhã, Deus triste,
O que te consola do vento.
Só eu sei que não sabes
Eximir-te do enfado,
Da noite, das bocas.

---

14 de outubro de 2008

Desenredo


[Guimarães Rosa]

"Sorriram-se, viram-se. Era infinitamente maio e Jó Joaquim pegou o amor. Enfim, entenderam-se. Voando o mais em ímpeto de nau tangida a vela e vento. Mas muito tendo tudo de ser secreto, claro, coberto de sete capas."

"Então ao rigor geral os dois se sujeitaram, conforme o clandestino amor em sua forma local, conforme o mundo é mundo. Todo abismo é navegável a barquinhos de papel."

"Não se via quando e como se viam. Jó Joaquim, além disso, existindo só retraído, minuciosamente. Esperar é reconhecer-se incompleto."

"O trágico não vem a conta-gotas."

"Tudo aplaudiu e reprovou o povo, repartido."

"Suas lágrimas corriam atrás dela, como formiguinhas brancas."

"Haja o absoluto amar – e qualquer causa se irrefuta."

(imagem: Peynet)
...



12 de outubro de 2008


"Plus on juge, moins on aime"



(Peter Gay disse que o Balzac disse... no fundo, não importa quem disse. Importa que foi dito!)

(a imagem - literalmente ilustrativa - é de jules et jim
___________

7 de outubro de 2008

Antologias


Poetas e girassóis
estão sendo moídos,

E o pó de seus dedos
clareia os moinhos.

[Jorge Tufic]

---


6 de outubro de 2008

5 de outubro de 2008

O Verme e a Estrela


[Pedro Kilkerry ]

Agora sabes que sou verme.
Agora, sei da tua luz.
Se não notei minha epiderme...
É, nunca estrela eu te supus
Mas, se cantar pudesse um verme,
Eu cantaria a tua luz!

E eras assim... Por que não deste
Um raio, brando, ao teu viver?
Não te lembrava. Azul-celeste
O céu, talvez, não pôde ser...
Mas, ora! enfim, por que não deste
Somente um raio ao teu viver?

Olho, examino-me a epiderme,
Olho e não vejo a tua luz!
Vamos que sou, talvez, um verme...
Estrela nunca eu te supus!
Olho, examino-me a epiderme...
Ceguei! Ceguei da tua luz?

2 de outubro de 2008

A noite é uma grande demora



"O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe?"

[116, GS:V - Rosa | imagem: Chema Madoz]
...

28 de setembro de 2008

O infinito amor tem cláusulas.


Ansiavam-se, desconhecendo o desamparo de ai-de de estar-se dentro do amor mas ainda em estados de discórdia, movidos dessa guerra: como as boas cordas, se para sonoras, bem a apertarem-se; como os fundentes metais, na arte da afinagem.

*

Aqueles que Deus uniu, nem eles mesmos conseguem se separar...

*


[rosa, retábulo de são nunca, 254]
imagem de Dolls (takeshi kitano)
_________

14 de setembro de 2008

Rosa e Ara..


Sinto e tenho a necessidade tremenda de sentir o amor como cousa NÃO HUMANA, SUPER-HUMANA, sublime, acima de tudo merecendo todos os sacrifícios, mesmo os mais inauditos. Sempre precisei disto. Isto ou nada. ‘Ou a perfeição, ou a pândega!’ Não me satisfaria um amor burguês, morno, conformado, dosado, raciocinando sobre conveniências ou inconveniências"

Os outros eu conheci por ocioso acaso. A ti vim encontrar porque era preciso.”

Serás tudo para mim: mulher, amante, amiga e companheira. Sim, querida, hás-de ajudar-me, ao escrever os nossos livros. Não só passarás à máquina o que eu escrever, como poderás auxiliar-me muito. Tu mesma não sabes o que vales. Eu sei. Sei, e sempre disse, que tens extraordinário gosto, para julgar coisas escritas. Muito bom gosto e bom senso crítico. Serás, além de inspiradora, uma colaboradora valiosa, apesar ou talvez mesmo por não teres pretensões de ‘literata pedante’. E estaremos sempre juntos, leremos juntos, passearemos juntos, nos divertiremos juntos, envelheceremos juntos, morreremos juntos.

6 de setembro de 2008

Chuva Interior



[mario chamie]

Quando saía de casa
percebeu que a chuva
soletrava
uma palavra sem nexo
na pedra da calçada.
Não percebeu
que percebia
que a chuva que chovia
não chovia
na rua por onde
andava.
Era a chuva
que trazia
de dentro de sua casa;
era a chuva
que molhava
o seu silêncio
molhado
na pedra que carregava.
Um silêncio
feito mina,
explosivo sem palavra,
quase um fio de conversa
no seu nexo de rotina
em cada esquina
que dobrava.
Fora de casa,
seco na calçada,
percebeu que percebia
no auge de sua raiva
que a chuva não mais chovia
nas águas que imaginava.

2 de setembro de 2008

Antônio Paulo, Antônio Paulo, Antônio Paulo...


Adão, Eva e Prometeu

[Mãos paralisadas pelo movimento do adeus]

A finitude é a provocação maior. Daí, a persistência em inventar deuses e religiões, em imaginar eternidades, em prolongar lamúrias.

A transcendência altera o valor do instante e acorda a possibilidade de mistérios.

Os percursos fundantes não são evidentes. O mapa não é o território e não tem como me apropriar das origens. São moradias de enigmas. Só com ilusões podemos decifrá-los. Planos de pertencimentos que vadiam fabricando deslocamentos.

O que importa é a trama. Não há mais lágrimas, se o humano não passa de uma criação discursiva (...) . Parece uma oração estranha, feita em algum filme de Antonioni.

Do cosmo e do caos, restam a ludicidade e a beleza?

Pensar a brincadeira que se recusa a ser séria revela outros tempos, para além do moderno. Os traços, os riscos, as cores, as dissonâncias garantem as travessuras e as possibilidades.

Não é simples abrir a porta e encontrar a casa vazia, quando ontem nela não cabia nem o suspiro do último visitante.

Para isso, existem as teorias: para consolidar ou enganar o nosso desejo de salvação. Para reunidos, sentirmos saudades de alguma coisa e seguirmos adiante, contando o que Ulisses não poderia contar, mas todos enamorados/enamoradas pelo tecer obstinado de Penélope.

O pior é não conhecei a história que está entranhada em cada objeto.

¹ espero não estar ferindo direitos autorais... rs
² brigada por me apresentar a antônio paulo, patrícia!
________________

31 de agosto de 2008

Griffonnage


[Octavio Paz, le feau de chaque jour]

Avec un morceau de charbon
avec ma craie cassée et mon crayon rouge
dessiner ton nom
le nom de ta bouche
le signe de tes jambes
sur le mur de personne
sur la porte interdite
graver le nom de ton corps
jusqu’à ce que la lame de mon couteau saigne
et la pierre crie
et le mur respire comme un sein


imagem: Bansky

_________________




18 de junho de 2008

Não eu, mas mim.




(...) a traça não pode com a alfazema.

Sua perene lembrança - me reobriga. O afeto propõe fortes e miúdas reminiscências.

(...) fino, estranho, inacabado, é sempre o destino da gente.

Como cabe tanta coisa nos meus olhos?

Coração, é indispensável; todos sentimos por quê. O dever, mesmo, vem dele. Entanto que dever e pudor compelem-no a pelejar oculto.

"Melhor é acreditar que uma harmonia secreta domina..." (Adelmar Tavares)

Ele era bom. Será que faz ainda sentido a palavra?

"Dou muita importância às pequenas coisas; mais do que às grandes." (João Neves da Fontoura, o Ministro)

"Não o conhecia bem, mas, num lampejo ocasional, ele me apareceu como a pessoa de que precisava junto de mim." (o Ministro, novamente)

Muito junto do braseiro, gente há às vezes que não se aquece direito, mas corre risco de sapecar a roupa.

Esperar é dar-se em hipoteca.

"
Toda segurança é aparente, todo bem-estar terrivelmente interino." (João Neves)

"
Meu interesse, sincero, pela imensa e imedida individualidade de Vargas, motivava-se também no querer achar, em sã hipótese, se era por dom congênito, ou de maneira adquirida mediante estudo e adestramento, que ele praticava o wu wei - 'não-interferência', a norma da fecunda inação e repassado não-esforço de intuição - passivo agente a servir-se das excessivas forças em torno e delas recebendo tudo pois 'por acréscimo'." (Cordisburgo, sobre Vargas)

"Enigma nenhum, apenas um fatalista de sorte..." (o Ministro, sobre Vargas)

Lembremo-nos sempre do que ainda não houve.

(...)
substância amorfa e escolhedora - o tempo.

Esta horária vida não nos deixa encerrar parágrafos, quanto mais terminar capítulos.

"As coisas estão amarradinhas é em Deus" (Vovó Chiquinha e Vovó Graciana)

(...)
a transparência pressupõe fundo luminoso.

"Sonhos ou realidade? Será que a gente vê mesmo, com exatidão, as pessoas e as coisas?"

(...)
poesia é remédio contra sufocação.

Tudo, pela metade, é verdade. Os extremos já de si sempre se tocam, antes que tese e antítese se proponham.

Da sensibilidade e inteligência tem-se sempre de pagar ingrato preço.

Quem julga? Apreendeu já alguém, sobre o fluxo dos fenômenos e dar-se de valores instantâneos, a ortografia das tortas linhas altas?

(...)
o viver vai maior e mais ligeiro que a gente.

"A vida é uma série crescente de restrições" (Neves da Fontoura)

E envelhecia bem; isto é, tomava posse do passado. O passado também é urgente. (Sagarana, sobre o Ministro)

"Ninguém muda ninguém..." - não julgava. Usava e dava a esperança. (Mais uma vez Joãozito acerca do Ministro)

Imortal é o que é do sofrido e espírito; tudo, abaixo daí, é póstumo.

As coisas que ele me disse não se afastam com o tempo.

"a ação é um enfraquecimento da contemplação"

Pois não descendemos dos mortos?

(...) arriscado e conturbante é a gente se tirar das solidões fortificadas.

As pessoas não morrem, ficam encantadas.

O mundo é mágico.


- Pérolas do discurso de posse de João Guimarães Rosa na Academia Brasileira de Letras -

________________________________________

Die in Love if you want to remain alive


Reason is powerless in the expression of Love. Love alone is capable of revealing the truth of Love and being a Lover. The way of our prophets is the way of Truth. If you want to live, die in Love; die in Love if you want to remain alive.
{Rumi}
--------

12 de junho de 2008

Vita somnium breve


Há as horas medonhas da noite. Já disse que a insônia me persegue. isto é, às vezes durmo. O mais, é um desaver, pausa pós-pausa.

[...]

Mas ocorre-me, mais que mais, aquele outro estado, que não é de viva vigília, nem de dormir, nem mesmo o de transição comum - mas é como se o meu espírito se soubesse a um tempo em diversos mundos, perpassando-se igualmente em planos entre si apartadíssimos.

[...]

Pinto aquele da 12ª lâmina do Tarô: o homem enforcado - o sacrifício, voluntário, gerador de forças. Esse, é o que me representa.

[...]

Sofro, mas espero. Antes de experiência, profundamente anímica. Tenho de tresmudar-me. Sofro as asas.

[...]


Guimarães Rosa, em Páramo (Estas Estórias) - imagem: Vita somnium breve, Boecklin
---

9 de junho de 2008


[Rumi]

A lover asked his beloved,
Do you love yourself more
than you love me?

The beloved replied,
I have died to myself
and I live for you.

I’ve disappeared from myself
and my attributes.
I am present only for you.

I have forgotten all my learning,
but from knowing you
I have become a scholar.

I have lost all my strength,
but from your power
I am able.

If I love myself
I love you.
If I love you
I love myself.
_________________

4 de junho de 2008

Madrugada

[Octavio Paz]

Rápidas manos frías
retiran una a una
las vendas de la sombra
Abro los ojos
todavía
estoy vivo
en el centro
de una herida todavía fresca.


in "Dias Hábiles", El fuego de cada día
...