6 de janeiro de 2008

Conversa de Bois

[Guimarães Rosa, Sagarana]

- Podemos pensar como o homem e como os bois. Mas é melhor não pensar como o homem...

- É porque temos que viver perto do homem, temos que trabalhar... Como os homens... Por que é que tivemos que aprender a pensar?
- É engraçado: podemos espiar os homens, os bois outros...
- Pior, pior... Começamos a olhar o medo... o medo grande... e a pressa... O medo é uma pressa que vem de todos os lados, uma pressa sem caminho... É ruim ser boi-de-carro. É ruim viver perto dos homens... As coisas ruins são do homem: tristeza, fome, calor - tudo, pensado, é pior...
- Mas, pensar no capinzal, na água fresca, no sono à sombra, é bom... É melhor do que comer sem pensar. Quando voltarmos, de noite, no pasto, ainda haverá boas touceiras do roxo-miúdo, que não secaram... E mesmo o catingueiro-branco está com as moitas só comidas a meia altura... É bonito poder pensar, mas só nas coisas bonitas...

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4 de janeiro de 2008

Facilmente aceitamos a realidade, talvez por intuirmos que nada é real.

Jorge Luis Borges, em "O Aleph"




Ser imortal é insignificante; com exceção do homem, todas as criaturas o são, pois ignoram a morte; o divino, o terrível, o incompreensível é saber-se imortal.


imagem: O Sétimo Selo, Ingmar Bergman

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2 de janeiro de 2008

ela vem de longe, envolta em estranhas cores


Um filme recente, As horas, apresenta Woolf de um modo que decerto teria maravilhado seus contemporâneos. Ela é a imagem exata da romancista sensível e sofredora. Onde está a mulher maliciosa e cruel que de fato era? E desbocada também, embora com um sotaque típico da classe alta. A posteridade, ao que parece, tem de suavizar e tornar respeitável, abrandar e polir, incapaz de ver que o áspero, o bruto, o discordante podem ser a fonte e o alimento da criatividade. Era inevitável que Woolf acabasse como uma distinta dama das letras, embora eu pense que nenhum de nós poderia ter imaginado que ela seria representada por uma moça jovem, bonita e elegante que nunca sorri, cuja testa sempre franzida mostra quantos pensamentos profundos e difíceis está tendo. Meu Deus! A mulher aproveitou a vida quando não estava doente; gostava de festas, de seus amigos, de piqueniques, excursões, caminhadas. Como adoramos mulheres vítimas; oh, como de fato as adoramos.

Doris Lessing, 2003 (em "A Casa de Carlyle e outros esboços", Virginia Woolf, Organização de David Bradshaw)

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o que você viveu ninguém rouba


"Na quinta década havia começado a imaginar o que era a velhice quando notei os primeiros ocos da memória. Revirava a casa buscando meus óculos até descobrir que os estava usando, ou entrava com eles no chuveiro, ou punha os de leitura sem tirar os de ver de longe. Um dia tomei duas vezes o café da manhã porque me esqueci da primeira, e aprendi a reconhecer o alarme de meus amigos quando não se atreviam a me lembrar que estava contando a mesma história que havia contado na semana anterior. Naquele tempo tinha na memória uma lista de rostos conhecidos e outra com os nomes de cada um, mas no momento de cumprimentar não conseguai que as caras coincidissem com os nomes."

(Gabriel García Marquez, Memória de Minhas Putas Tristes)
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1 de janeiro de 2008

toda a razão do amor é afogar-se no mar.


The intellectual is always showing off,

the lover is always getting lost.

The intellectual runs away,

afraid of drowning;

the whole business of love

is to drown in the sea.

Intellectuals plan their repose;

lovers are ashamed to rest.

The lover is always alone.

even surrounded by people;

like water and oil, he remains apart.

The man who goes to the trouble

of giving advice to a lover

get nothing. He's mocked by passion.

Love is like musk. It attracts attention.

Love is a tree, and the lovers are its shade.

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24 de dezembro de 2007

In the mood for love


"O encontro foi constrangedor. Ela ficou de cabeça baixa esperando ele se aproximar. Ele não veio, faltou coragem, e ela, então, se foi"

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23 de dezembro de 2007

Vivia um amor que nada abrandava...

A palavra não pode dizer nunca aquilo de que pretendo falar, e não sei como hei de dizê-lo...



[Pascal Quignard, Todas as Manhãs do Mundo | imagem: Lord Frederick Leighton]

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19 de dezembro de 2007

Gilda


[Vinicius de Moraes]


Nos abismos do infinito | Uma estrela apareceu | E da terra ouviu-se um grito (Gilda, Gilda) | Era eu, maravilhado | Ante a sua aparição | Que aos poucos fui levado | nos véus do bailado | Pela imensidão | Aos caprichos do seu rastro | Como um pobre astro |Morto de paixão (Gilda, Gilda Gilda e eu) | (Gilda, Gilda Gilda e eu) | E depois, nós dois unidos | Como Eurídice e Orfeu | Fomos sendo conduzidos (Gilda e eu) | Pelas mágicas esferas | Que se perdem pelo céu | Em demanda de outras eras | Velhas primaveras | Que o tempo esqueceu | Pelo espaço que nos leva | Pela imensa treva | Para as mãos de Deus | (Gilda, Gilda Gilda e eu) | (Gilda, Gilda Gilda e eu).

imagem: Gustave Moreau

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18 de dezembro de 2007

Deixarei que o caminho me escolha


"Chegando na encruzilhada
eu tive de resolver
para a esquerda fui, contigo.
Coração soube escolher"

(p.277)

Guimarães Rosa, em Sagarana!

imagem: Chagall

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14 de dezembro de 2007

Valsa do Bordel


[Vinicius de Moraes]

Longas piteiras | perfumes no ar | roxas olheiras | em torno do olhar | que brincadeira | fazer profissão | da mais antiga e mais sem solução | Discos franceses | tão sentimentais | velhos fregueses | com taras iguais | ai, quem me dera | voltar para trás | sem sentir mais tanta solidão | E, de repente | entre tanto cliente | Lá chega o gostosão | e, incontinênti, abre conta-corrente | em nosso coração | A gente apanha | mas sente prazer | dá o que ganha | e o que se vai fazer? | ele é a paixão todo o resto é saber | vender um pouco de ilusão

imagam: Juarez Machado
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12 de dezembro de 2007

tears for affairs

[Camera Obscura]

Shedding tears for affairs
I’m a funny little thing
I can tell you this for nothing
Affairs don’t win
Can you handle one more dirty secret one more dirty night?


Is it true what they say?
Will it make us go blind?

You had to drive
Look me in the eye
Whisper don’t cry

I’ll take an interest in Illustration
It should be a laugh

Your words are with me still
They whisper in the grass


Shedding tears for affairs
I’m a stupid little thing
I can tell you this for nothing
You won’t win

You had to drive
(I didn’t want to)
Look me in the eye
(I found it hard to)

Whisper don’t cry

(I had to whisper don’t cry)

So I cried

imagem: mucha.

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5 de dezembro de 2007

Cuydados meus tão cuydados




Cancioneiro de Hortênsia [Portugal – séc XVI ]

Cuydados meus tão cuydados,
Que farey?
Que nunca vos tais cuidey.

Para cuydados não mais
Em todos vos escolhi,
Fizestes vos em mi tais
Que descuydais de mi.

Agora que sinto em mi
O que andei,
Cuydados meus que farei?
Que nunca vos tais cuidey.

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23 de novembro de 2007

Marcha da quarta-feira de cinzas



[Carlos Lyra e Vinicius de Moraes]

Acabou nosso carnaval | Ninguém ouve cantar canções | Ninguém passa mais brincando feliz | E nos corações | Saudades e cinzas foi o que restou. | Pelas ruas o que se vê | É uma gente que nem se vê | Que nem se sorri, se beija e se abraça | E sai caminhando | Dançando e cantando cantigas de amor. | E no entanto é preciso cantar | Mais que nunca é preciso cantar | É preciso cantar e alegrar a cidade... | A tristeza que a gente tem | Qualquer dia vai se acabar | Todos vão sorrir, voltou a esperança | É o povo que dança | Contente da vida, feliz a cantar. | Porque são tantas coisas azuis | Há tão grandes promessas de luz | Tanto amor para amar de que a gente nem sabe... | Quem me dera viver pra ver | E brincar outros carnavais | Com a beleza dos velhos carnavais | Que marchas tão lindas | E o povo cantando seu canto de paz.

imagem: do filme "a liberdade é azul"

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21 de novembro de 2007

Coração bruto batente por debaixo de tudo

E de repente eu estava gostando dele, num descomum, gostando ainda mais do que antes, com meu coração nos pés, por pisável; e dele o tempo todo eu tinha gostado. Amor que amei - daí então acreditei. A pois, o que sempre não é assim? {p.254}

Pudesse tirar de si esse medo-de-errar, a gente estava salva. {p.201}

Ah, naquela hora eu gostava dele na alma dos olhos, gostava - da banda de fora de mim. {p.197}

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guimarães rosa. grande sertão: veredas
imagem: visitation, sally gall
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15 de novembro de 2007

(postagem nº 100)


{obrigada a todos os que passam por aqui - e que eu não saberia que passam se não tivesse colocado um contador de visitas - rs. ok, eu também tenho preguiça de comentar... pra comemorar, uma canção da dinah washington cujo nome eu não sei e cuja letra eu procurei feito doida e não encontrei. o jeito foi ir copiando by my wonderful listening! espero não ter ficado péssima demais. peço encarecidamente que uma boa alma me envie a letra toda bonitinha.}

did you ever watched the one you love slowly drift in the way from you? and you know deep down in your heart there's not a damn thing you can do to make him stay or turn the time?
Lord! take easy the pain that you feel too down inside when his eyes ('re?) saying "it's over and done"... and you simplily must face the fact, so you leave and hang it's over. but you find yourself rushing back or (may?) he'll change his mind, praying he'll take you back...
but, like mustfull would say:

that's all, there is too late!

imagem: bansky

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14 de novembro de 2007

Madrugada


[Octavio Paz]

Rápidas manos frías
retiran una a una
las vendas de la sombra
Abro los ojos
todavía
estoy vivo
en el centro
de una herída todavía fresca.

["El Fuego de Cada Día". Días Hábiles: 1958-1961, p. 107 | imagem: Nan Goldin]

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13 de novembro de 2007

aprender-a-viver é que é o viver, mesmo.

Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa - a inteira - cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver - e essa pauta cada um tem - mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto: mas, fora dessa conseqüência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para cada representador - sua parte, que antes já foi inventada, num papel...

[João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, p. 500]

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12 de novembro de 2007

E amor é isso: o que bem-quer e mal faz?


"Dói sempre na gente, alguma vez, todo amor achável, que algum dia se desprezou..."

(GS:V, p. 538. imagem do filme "carta de uma desconhecida")

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4 de novembro de 2007

Tudo tem seus mistérios


[Guimarães Rosa - GS:V]

Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado.

(p.285)

imagem: A Dama das Camélias
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