17 de abril de 2008

Cantiga

imagem: Bansky


Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.

[Manuel Bandeira]

> thanks, Aline!
...

12 de abril de 2008

it's a pleasure to be sad

(Caio Fernando Abreu, em "Pela Noite")

anos, não apenas um, dezenas, anos e anos de solidão, eu quero a alegria, rosnou, quero porque quero o princípio do prazer, não tornaria a ouvir o sax desesperado, o seco, porque não suportaria, sim, suportaria, suportarás, as pessoas suportam tudo, as pessoas às vezes procuram exatamente o que será capaz de doer ainda mais fundo, o verso justo, a música perfeita, o filme exato, punhaladas revirando um talho quase fechado, cada palavra, cada acorde, cada cena, até a dor esgotar-se autofágica, consumida em si mesma, transformada em outra coisa que não saberia dizer qual era, porque não chegara lá ou sim (...)



I'm a fooll to hold you

Distraídos, os olhos erravam à toa pelos quatro cantos. Na parede atás do sofá Santiago viu então, pela primeira vez, a grande reprodução colorida e vertical de um quadro onde um homem beijava uma mulher. Podiam-se distinguir apenas os cabelos dele, muito pretos e crespos, com uma nesga do rosto moreno afundando na pele branca da mulher. Dela, via os olhos fechados numa expressão menos de prazer que de paz, pequeninas estrelas brancas e azuis emaranhadas no cabelo. E aquela chuva de ouro ao fundo, derramada também pelos longos mantos amarelos que vestiam, pisando flores miudinhas. Tão claro, tudo, mancha ofuscante de sol no meio da parede da sala branca.

Caio Fernando Abreu, em "Pela Noite" | imagem: "O Beijo", Klimt

10 de abril de 2008

Chico Malandro!


Fica
Diz que eu não sou de respeito, diz que não dá jeito, de jeito nenhum.
Diz que eu sou subversivo
, um elemento ativo, feroz e nocivo ao bem-estar comum...
Mas fica
...
Mas fica, meu amor!

Quem sabe um dia,

Por descuido - ou poesia
-
Você goste de ficar!


---

Não Existe Pecado ao Sul do Equador

Não existe pecado do lado de baixo do equador
Vamos fazer um pecado rasgado, suado, a todo vapor
Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho
Um riacho de amor
Quando é lição de esculacho, olha aí, sai de baixo
Que eu sou professor
...
Deixa a tristeza pra lá, vem comer, me jantar
Sarapatel, caruru, tucupi, tacacá
Vê se me esgota, me bota na mesa
Que a tua holandesa
Não pode esperar!

---

De volta ao samba

Pensou que eu não vinha mais, pensou?
Cansou de esperar por mim?
Acenda o refletor, apure o tamborim!
Aqui é o meu lugar: eu vim!
...
Quem vibrou nas minhas mãos
Não vai me largar assim
Acenda o refletor, apure o tamborim
Preciso lhe falar: eu vim!
--

7 de abril de 2008

Pela Noite

- Sei, sei. Você vai perguntar: mas houve algum erro? Bem, não sei se a palavra exata é essa, erro. Mas estava ali, tão completamente ali, você me entende? No segundo seguinte, você ia tocá-la, você ia tê-la. Era tão. Tão imediata. Tão agora. Tão já. E não era. Meu Deus, não era. Foi você que não soube fazer o movimento correto? O movimento perfeito, tinha que ser um movimento perfeito. Talvez tenha demonstrado demasiada ansiedade, eu penso. E a coisa se assustou, então. Como se fosse uma fruta madura, à espera de ser colhida. É assim que vejo ela, às vezes. Como uma coisa parada, à espera de ser colhida por alguém que é exatamente você. Não aconteceria com outros. Depois, quando ela foge, penso que não, que não era uma fruta. Que era um bicho, um bichinho desses ariscos. Coelho, borboleta. Um rato. É preciso cuidado com o arisco, senão ele foge. É preciso aprender a se movimentar dentro do silêncio e do tempo. Cada movimento em direção a ele é tão absurdamente lento que o tempo fica meio abolido. Não há tempo. Um bicho arisco vive dentro de uma espécie de eternidade. Duma ilusão de eternidade. Onde ele pode ficar parado para sempre, mastigando o eterno. Para não assustá-lo, para tê-lo dentro de seus dedos quando eles finalmente se fecharem, você também precisa estar dentro dessa ilusão do eterno.

(…)

- O erro? Eu dizia, pois é, o erro. Eu penso, se o erro não foi de dentro, mas de fora? Se o erro não foi seu, mas da coisa? Se foi ela quem não soube estar pronta? Que não captou, que não conseguiu captar essa hora exata, perfeita, de estar pronta. Porque assim como o movimento de apanhar deve ser perfeito, deve ser perfeita também a falta de movimento, a aparente falta de movimento do que se deixa apanhar. Você me entende? Eu penso também, e se houve alguma interferência no. No em-volta-dos-dois, no ar. No astral, eu penso também. Uma coisa de Deus, do invisível, do mistério, que embora pareça errada ao não te deixar apanhar o prometido, no entanto está absolutamente certa. Porque é assim que é. Naturalmente. As coisas sempre prestes a serem apanhadas. E você eternamente prestes a apanhá-las. Como uma sina. Sempre prestes.

[Caio Fernando Abreu, em "Estranhos Estrangeiros"]

imagem: Luminatii
----------

5 de abril de 2008

Perdoa-me por me traíres

Nelson Rodrigues

TIO RAUL
Você está com outra cara!
GILBERTO A cara é o menos! Outra alma e te juro: eu sou outro, profundamente outro. (com angústia) E sabe por que é que enlouquecemos? Porque não amamos!

...

GILBERTO Na casa de saúde eu pensava: nós devemos amar a tudo e a todos. Devemos ser irmãos até dos móveis, irmãos até de um simples armário! Vim de lá gostando mais de tudo! Quantas coisas deixamos de amar, quantas coisas esquecemos de amar. Mas chego aqui e vejo o quê? Que ninguém ama ninguém, que ninguém sabe amar ninguém. Então é preciso trair sempre, na esperança do amor impossível. (agarra o irmão) Tudo é falta de amor: um câncer no seio ou um simples eczema é o amor não possuído!

...

GILBERTO É que Judite não é culpada de nada! E, se traiu, o culpado sou eu, culpado de ser traído! Eu o canalha!
TIO RAUL (Segura Gilberto pelos braços e sacode-o) — Tua cura é um blefe. A tua generosidade, doença! Agora sim, é que estás louco!

...

(Silêncio geral. E, fora então, de si, o marido atira-se aos pés de Judite)
GILBERTO (Num soluço imenso) — Perdoa-me por me traíres!
JUDITE (Desprende-se num repelão selvagem) (apontando) — Está louco!
_________

3 de abril de 2008

Encorajamento

(Guimarães Rosa, em Magma)


Meu desejo corre a ti com velas enfunadas...
Podes dar-lhe um porto, sem nenhum receio:
ele não traz âncora...

imagem: Chagall

----

2 de abril de 2008

Tornamento - III

(Sá Araújo Ségrim, em Ave, Palavra)

Às vezes - o destino não se esquece -
as grades estão abertas,
as almas estão despertas:
às vezes,
quando quanda,
quando à hora,
quando os deuses,
de repente
- antes -
a gente
se encontra.
---

1 de abril de 2008

Literatura e enigmas

James Joyce gabou-se certa vez de que os críticos literários iriam passar cem ou duzentos anos tentando decifrar o seu “Ulisses”. O mesmo poderia ser dito de Guimarães Rosa, ele também um notório preparador de armadilhas. Os livros de Rosa estão cheios de pequenas coisas incompreensíveis que fazem a gente se deter na leitura: “Mas o que diabo será isto?” A coisa funciona como aqueles alçapões de pegar aves ou bichos: se a gente pisa e passa adiante escapa, mas, se parar, o alçapão se abre e nos engole. Com o texto de Rosa é a mesma coisa. Vemos algo indecifrável, paramos, pensamos... e o alçapão que se abre é o do entendimento, quando “matamos a charada” e por trás da resposta vemos o sorriso largo e maroto do autor, satisfeito como um menino.

Rosa era mais enigmático do que Joyce, no sentido do emprego de símbolos propositais, códigos encobertos, alusões semi-aparentes à flor do texto. Perceber uma dessas referências cifradas (e mais ainda, constatar que o autor, em carta ou entrevista, confirma nossa descoberta) é experimentar a irresistível vertigem de supor que naqueles textos de dimensões colossais tudo é enigma, código, charada pronta com resposta à nossa espera.

Um livro como “Recado do Nome” de Ana Maria Machado, analisando as alusões veladas nos nomes dos personagens de Rosa nos dá uma medida dessa intencionalidade ferrenha. Saímos da leitura envoltos numa paranóia semântica, na idéia fixa de ver duplo sentido no termo mais casual. Tudo é armadilha, tudo “está ali por algum motivo”. Há um episódio em que Rosa comentava com João Cabral um trecho (se não me engano do “Corpo de Baile”) em que alguém corta a jugular de um animal, e no fim da frase ele usa assim a pontuação: “.!.”, ou seja, ponto, exclamação e ponto. Como Cabral parecesse não entender, Rosa piscou o olho e disse: “É para a exclamação ficar parecendo o jato de sangue... Gostou?!” Esse espírito lúdico, travesso, de meninão de óculos brincando com a linguagem, é uma das características mais simpáticas da obra de Rosa.

Em “Recado do Morro”, por exemplo, existe uma complexa associação de nomes próprios entre os sete arruaceiros que ameaçam Pedro Orósio, as sete fazendas percorridas por ele em sua viagem, e sete “planetas” (Sol, Lua, Vênus, Marte, etc.) Duvido que algum crítico conseguisse deslindar esse paralelo se o próprio Rosa não o tivesse explicado tintim por tintim numa carta ao seu tradutor italiano, Edoardo Bizarri. A correspondência de Rosa com Bizarri e com o tradutor alemão, Curt Meyer-Clason, nos fornece uma avalanche de revelações sobre o que está oculto sob seus textos. Escritor em igual medida metódico e intuitivo, catalografista e improvisador, Rosa é um caso fascinante de uso permanente da chamada “intertextualidade” e da escrita que permite múltiplas leituras. Nem toda literatura é charada e enigma, mas a dele sem dúvida o é, e me arrisco a dizer que é um poço inesgotável.


Braulio Tavares é escritor e compositor, e este artigo foi publicado em sua coluna diária sobre Cultura no "Jornal da Paraíba" (http://jornaldaparaiba.globo.com).

31 de março de 2008

Paraíso Filosófico


No jardim das Hespéridas, sem flores
na discrição dos tufos de folhagem,
passeiam passos lentos
homens de túnica longa,
como os magos da Rosa-Cruz.

Sob os pomos das luzes do Capricórnio
o relógio do tempo
há muito que parou, os dedos superpostos,
como o dia e a noite,
porque não há mais noite e nem dia...

Ar parado,
lagos vidrados,
e vasos,
muitos vasos,
vasos vazios...

Os anciãos perpassam
intérminos terraços,
com olhos tranqüilos, olhos gelados,
de tanto olharem o sol.
E as mãos tateiam calmas,
como se os dedos mergulhassem
a translucidez de uma água,
esculpindo
invisíveis e impossíveis formas novas...

(João Guimarães Rosa, em Magma)
------------

30 de março de 2008

Eu sigo a religião do Amor

Ibn Arabi

Meu coração tornou-se capaz

de assumir qualquer forma;
ele é um pasto para gazelas e um convento para monges cristãos,
um templo para ídolos e a Caaba dos peregrinos
as tábuas da Torah e o livro do Corão.
Eu sigo a religião do Amor:
qualquer que seja o caminho que o Amor toma,
esta é minha religião e minha fé.
________

29 de março de 2008

Definição

O cigarro de fumaça impalpável e brasa colorida,
que se fuma a si mesmo num cinzeiro,

será um poeta?...


(João Guimarães Rosa, em Magma)
...

28 de março de 2008

O Grande Samba Disperso

[João Guimarães Rosa, em "Ave, Palavra"]

AMOREARTE - Alto lá! Basta. Um momento. Seja não, não, sim, sim; mas, vejam bem, se perderam, mesmo. Amor perdido é amor que não foi achado: não-amor. Não o amor-mor, o mor do amor. Mas falso amor, algum engano. O falso-amor é um biombo, o mor-amor é um ribombo. Então, se não é, resolvam: e... pirai-vos! - oh grandes entes imorais... Perdido por um, perdido por mil... - como dizem as cachoeiras...

POLICARPO. - Ela...

MERCÊS - Ele...

[...]

AMOREARTE - Unisoou. Amor renhido, amor crescido. Cousa grande! Vocês dois são o que-não-sei: o tudo, a... persistência da lua, apesar das cidades. Umbigo - centro, centro, centro. Umbigo - medida ideal. Havei forte amor! O amor não precisa de memória, não arredonda, não floreia: faz forte estilo. E fim.

imagem: sempre querido Chagall
......

24 de março de 2008

O Amor partiu meu leve coração

[Rûmî]

O Amor partiu meu leve coração
e o sol vem clarear minhas ruínas.

Ouvi belas palavras do Sultão
Caí por terra triste, acabrunhado.

Acercou-se de mim, vi o seu rosto.
"Do rosto eu não sabia mais que o véu."

Se a luz do véu abrasa esse universo,
o que dizer do fogo de teu rosto?

O Amor veio e partiu. Eu o segui.
Voltou-se, como águia, e devorou-me.

Perdi-me no tempo e no espaço.
Perdi-me nos mares do verbo.

O gosto deste vinho,
conhece quem sofreu.

Os profetas bebem tormentos.
E as águas não temem o fogo.

A Sombra do Amado: Poemas de Rûmî (oraganizado por Marcos Lucchesi)
...

16 de março de 2008

Você está cravado em minha alma como um prego enferrujado sem cabeça.

Quem não sonha às vezes em partir, fugir e queimar-se em alguma chama distante? [p.165]

Acabou. Desisto. Mas deixe-me ficar nos seus braços. Descansar meus dedos na sua nuca. Alisar o seu cabelo cinzento despenteado. Vir sorrateiramente descalça por trás de você e enterrar meus dedos em seus cabelos quando você está inclinado sobre a escrivaninha de manhã cedo, banhado pela aura elétrica do abajur, decifrando com precisão cirúrgica algum texto furiosamente místico. Serei sua esposa e serva. La commedia è finita. De agora em diante, será feita vossa vontade. Estou aguardando. [p.139]

177. A negação do Presente é um disfarce para a autonegação: o Presente é percebido como um pesadelo, como um exílio, como um "eclipse", porque o eu - foco do senso do Presente - é experimentado como uma depressão insuportável. [p.123]

Como enfeitiçada, fui atraída por você das profundidades lodosas da subserviência feminina ancestral, uma servidão anterior às palavras, a submissão de mulher de Neanderthal cujo instinto cego de sobrevivência e o medo da fome e do frio arrojaram aos pés do mais cruel dos caçadores, o selvagem hirsuto que amarrará as mãos dela nas costas e a levará, cativa, para sua caverna. [p.153]

"Você é a tristeza da minha cabeça calva
a melancolia das minhas longas unhas:
você vai me ouvir no reboco das suas paredes
no ranger noturno do seu assoalho" (Alterman) [p.162]


Amós Oz, A Caixa Preta.

>>>

14 de março de 2008

Evanira!

[guimarães rosa, ave palavra!]

(De seu não dizer
as lâminas sucessivas:
e uma tristeza de volta
nos esforços de ida.)

DESENTENDER-SE O MAR? Só, e agora mais só -- no abismo-eu, que é o chão dos sonhos. NINGUÉM TEM CONSTÂNCIA NA SAUDADE? (O amor moroso. A impermanência. A sub-vivência. A insubstância.)

Azul que habitou meus olhos...
Meu íntimo é solúvel em ti.

ANDAM ALVURAS. AMO-TE. DE REPENTE, E ME SEPARO DE UM MILHÃO DE COISAS. Uno-me.

S a u d a d e. Ai-de-me! quem poderia restituir-me o que, DEPOIS nunca houve, só ausente, nem há-de.

Eis-me amor. Há tanto, há quando? anos? - DOZE mil, milhões, imensidões e mais... (E és: Vega-soberba estrela azul, A ALVÍSSIMA)... FIOS MANSOS DE MAR..

A saudade é um sonho insone.

...

12 de março de 2008

Distante Dragão de Mármore

[Amós Oz, A Caixa Preta]

Você é o senhor do meu ódio e da minha saudade. O mestre dos meus sonhos à noite. Governante do meu cabelo e da minha garganta e das solas dos meus pés. Soberano dos meus seios meu ventre minhas partes secretas meu útero. Como uma serva sou subordinada a você. Eu amo meu senhor. Não quero ser livre. Mesmo se você me enviar em desgraça aos confins do reino, no deserto, como Hagar com o filho Ismael, para morrer de sede no ermo, será na sede por você, meu senhor. Mesmo se me arrancar de sua presença e me transformar num brinquedo para os seus escravos, nos calabouços do palácio. [p.47]

___________

11 de março de 2008

Senhas

[Adriana Calcanhotto]

Por hoje, essa música vai ser minha profissão de fé:


Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos

...

Eu aguento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades

...

Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem


5 de março de 2008

Minha língua é a arma com a qual defendo a dignidade do homem.

Sua linguagem, sem dúvida, é algo único, algo onde se pode cair e quebrar os dentes; mas, principalmente por causa dela, depois de ler seus livros, a gente acredita ter descoberto um mundo completamente novo.


Gunther Lorenz, sobre Guimarães Rosa

...

A língua e eu somos um casal de amantes que juntos procriam apaixonadamente, mas a quem até hoje foi negada a bênção eclesiástica e científica. Entretanto, como sou sertanejo, a falta de tais formalidades não me preocupa. Minha amante é mais importante para mim.

Guimarães Rosa, sobre a língua de Guimarães Rosa

...

Escrever é um processo químico; o escritor deve ser um alquimista. Naturalmente, pode explodir no ar. A alquimia do escrever precisa de sangue do coração. Não estão certos, quando me comparam com Joyce. Ele era um homem cerebral, não um alquimista. Para poder ser feiticeiro da palavra, para estudar a alquimia do sangue do coração humano, é preciso provir do sertão.

Rosa, sobre a alquimia da palavra e as comparações com Joyce

...

A lógica, prezado amigo, é a força com a qual o homem, algum dia, haverá de se matar. Apenas superando a lógica é que se pode pensar com justiça. Pense nisto: o amor é sempre ilógico, mas cada crime é cometido segundo as leis da lógica.

O Cavaleiro da Rosa (do burgo do Coração) fala sobre a "lógica"...

...

3 de março de 2008

"Não, não, não... Eu gosto de apoio, o apoio é necessário para a transcendência. Mas quanto mais estou apoiando, quanto mais realista sou, você desconfie. Aí é que está o degrau para a ascensão, o trampolim para o salto. Aquilo é o texto pago para ter o direito de esconder uma porção de coisas... para quem não precisa de saber e não parecia... Você está entendendo?"

Guimarães Rosa, em entrevista a Gunther Lorenz.

----------------

2 de março de 2008

[Rumi]

Não posso dormir quando estou contigo
por causa de teu amor.
Não posso dormir quando estou sem ti
por causa de meu pranto e gemidos.
Passo as duas noites acordado
mas, que diferença entre uma e outra!
...