24 de dezembro de 2007

In the mood for love


"O encontro foi constrangedor. Ela ficou de cabeça baixa esperando ele se aproximar. Ele não veio, faltou coragem, e ela, então, se foi"

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23 de dezembro de 2007

Vivia um amor que nada abrandava...

A palavra não pode dizer nunca aquilo de que pretendo falar, e não sei como hei de dizê-lo...



[Pascal Quignard, Todas as Manhãs do Mundo | imagem: Lord Frederick Leighton]

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19 de dezembro de 2007

Gilda


[Vinicius de Moraes]


Nos abismos do infinito | Uma estrela apareceu | E da terra ouviu-se um grito (Gilda, Gilda) | Era eu, maravilhado | Ante a sua aparição | Que aos poucos fui levado | nos véus do bailado | Pela imensidão | Aos caprichos do seu rastro | Como um pobre astro |Morto de paixão (Gilda, Gilda Gilda e eu) | (Gilda, Gilda Gilda e eu) | E depois, nós dois unidos | Como Eurídice e Orfeu | Fomos sendo conduzidos (Gilda e eu) | Pelas mágicas esferas | Que se perdem pelo céu | Em demanda de outras eras | Velhas primaveras | Que o tempo esqueceu | Pelo espaço que nos leva | Pela imensa treva | Para as mãos de Deus | (Gilda, Gilda Gilda e eu) | (Gilda, Gilda Gilda e eu).

imagem: Gustave Moreau

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18 de dezembro de 2007

Deixarei que o caminho me escolha


"Chegando na encruzilhada
eu tive de resolver
para a esquerda fui, contigo.
Coração soube escolher"

(p.277)

Guimarães Rosa, em Sagarana!

imagem: Chagall

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14 de dezembro de 2007

Valsa do Bordel


[Vinicius de Moraes]

Longas piteiras | perfumes no ar | roxas olheiras | em torno do olhar | que brincadeira | fazer profissão | da mais antiga e mais sem solução | Discos franceses | tão sentimentais | velhos fregueses | com taras iguais | ai, quem me dera | voltar para trás | sem sentir mais tanta solidão | E, de repente | entre tanto cliente | Lá chega o gostosão | e, incontinênti, abre conta-corrente | em nosso coração | A gente apanha | mas sente prazer | dá o que ganha | e o que se vai fazer? | ele é a paixão todo o resto é saber | vender um pouco de ilusão

imagam: Juarez Machado
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12 de dezembro de 2007

tears for affairs

[Camera Obscura]

Shedding tears for affairs
I’m a funny little thing
I can tell you this for nothing
Affairs don’t win
Can you handle one more dirty secret one more dirty night?


Is it true what they say?
Will it make us go blind?

You had to drive
Look me in the eye
Whisper don’t cry

I’ll take an interest in Illustration
It should be a laugh

Your words are with me still
They whisper in the grass


Shedding tears for affairs
I’m a stupid little thing
I can tell you this for nothing
You won’t win

You had to drive
(I didn’t want to)
Look me in the eye
(I found it hard to)

Whisper don’t cry

(I had to whisper don’t cry)

So I cried

imagem: mucha.

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5 de dezembro de 2007

Cuydados meus tão cuydados




Cancioneiro de Hortênsia [Portugal – séc XVI ]

Cuydados meus tão cuydados,
Que farey?
Que nunca vos tais cuidey.

Para cuydados não mais
Em todos vos escolhi,
Fizestes vos em mi tais
Que descuydais de mi.

Agora que sinto em mi
O que andei,
Cuydados meus que farei?
Que nunca vos tais cuidey.

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23 de novembro de 2007

Marcha da quarta-feira de cinzas



[Carlos Lyra e Vinicius de Moraes]

Acabou nosso carnaval | Ninguém ouve cantar canções | Ninguém passa mais brincando feliz | E nos corações | Saudades e cinzas foi o que restou. | Pelas ruas o que se vê | É uma gente que nem se vê | Que nem se sorri, se beija e se abraça | E sai caminhando | Dançando e cantando cantigas de amor. | E no entanto é preciso cantar | Mais que nunca é preciso cantar | É preciso cantar e alegrar a cidade... | A tristeza que a gente tem | Qualquer dia vai se acabar | Todos vão sorrir, voltou a esperança | É o povo que dança | Contente da vida, feliz a cantar. | Porque são tantas coisas azuis | Há tão grandes promessas de luz | Tanto amor para amar de que a gente nem sabe... | Quem me dera viver pra ver | E brincar outros carnavais | Com a beleza dos velhos carnavais | Que marchas tão lindas | E o povo cantando seu canto de paz.

imagem: do filme "a liberdade é azul"

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21 de novembro de 2007

Coração bruto batente por debaixo de tudo

E de repente eu estava gostando dele, num descomum, gostando ainda mais do que antes, com meu coração nos pés, por pisável; e dele o tempo todo eu tinha gostado. Amor que amei - daí então acreditei. A pois, o que sempre não é assim? {p.254}

Pudesse tirar de si esse medo-de-errar, a gente estava salva. {p.201}

Ah, naquela hora eu gostava dele na alma dos olhos, gostava - da banda de fora de mim. {p.197}

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guimarães rosa. grande sertão: veredas
imagem: visitation, sally gall
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15 de novembro de 2007

(postagem nº 100)


{obrigada a todos os que passam por aqui - e que eu não saberia que passam se não tivesse colocado um contador de visitas - rs. ok, eu também tenho preguiça de comentar... pra comemorar, uma canção da dinah washington cujo nome eu não sei e cuja letra eu procurei feito doida e não encontrei. o jeito foi ir copiando by my wonderful listening! espero não ter ficado péssima demais. peço encarecidamente que uma boa alma me envie a letra toda bonitinha.}

did you ever watched the one you love slowly drift in the way from you? and you know deep down in your heart there's not a damn thing you can do to make him stay or turn the time?
Lord! take easy the pain that you feel too down inside when his eyes ('re?) saying "it's over and done"... and you simplily must face the fact, so you leave and hang it's over. but you find yourself rushing back or (may?) he'll change his mind, praying he'll take you back...
but, like mustfull would say:

that's all, there is too late!

imagem: bansky

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14 de novembro de 2007

Madrugada


[Octavio Paz]

Rápidas manos frías
retiran una a una
las vendas de la sombra
Abro los ojos
todavía
estoy vivo
en el centro
de una herída todavía fresca.

["El Fuego de Cada Día". Días Hábiles: 1958-1961, p. 107 | imagem: Nan Goldin]

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13 de novembro de 2007

aprender-a-viver é que é o viver, mesmo.

Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa - a inteira - cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver - e essa pauta cada um tem - mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto: mas, fora dessa conseqüência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para cada representador - sua parte, que antes já foi inventada, num papel...

[João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, p. 500]

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12 de novembro de 2007

E amor é isso: o que bem-quer e mal faz?


"Dói sempre na gente, alguma vez, todo amor achável, que algum dia se desprezou..."

(GS:V, p. 538. imagem do filme "carta de uma desconhecida")

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4 de novembro de 2007

Tudo tem seus mistérios


[Guimarães Rosa - GS:V]

Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado.

(p.285)

imagem: A Dama das Camélias
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30 de outubro de 2007

"Mulher é gente tão infeliz..."


Queria eu lá viver perto de chefes? Careço é de pousar longe das pessoas de mando, mesmo de muita gente conhecida. Sou peixe de grotão. Quando gosto, é sem razão descoberta, quando desgosto, também. Ninguém, com dádivas e gabos, não me transforma.

( O Cavaleiro da Rosa do Burgo do Coração, em GS: V)
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28 de outubro de 2007

Kalu


[Humberto Teixeira]

Kalu, Kalu
Tira o verde desses óios di riba d'eu
Kalu, Kalu
Não me tente se você já me esqueceu
Kalu, Kalu
Esse oiá despois do que se assucedeu
Cum franqueza só n'um tendo coração
Fazê tal judiação
Você tá mangando d'eu
Com franqueza só não tendo coração
Fazê tal judiação
Você tá mangando d'eu

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25 de outubro de 2007

A vida nem é da gente...


{Guimarães Rosa, no Grande Sertão}

Mire veja o senhor tudo o que na vida se estorva, razão de pressentimentos. (p.150)

O senhor sabe, se desprocede: a ação escorregada e aflita, mas sem sustância narrável. (p.152)

Quem desconfia, fica sábio. (p.154)

Eu queria ir para ele, para abraço, mas minhas coragens não deram. Porque ele faltou com o passo, num rejeito, de acanhamento.

Comigo, as coisas não têm hoje e ant'ôntem amanhã: é sempre. (p.156)

Tormentos. Sei que tenho culpas em aberto. Mas quando foi que minha culpa começou? O senhor por ora mal me entende, se é que no fim me entenderá. Mas a vida não é entendível.

Qualquer coisa que ele falasse, para mim virava sete vezes. (p.160)

Deus vem, guia a gente por uma légua, depois larga. Então, tudo resta pior do que antes. Esta vida é de cabeça-para-baixo, ninguém pode medir suas pêrdas e colheitas.

A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar. A senvergonhice reina, tão leve e leve pertencidamente, que por primeiro não se crê no sincero sem maldade. (p.162)

Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar por longe, e eu só nele pensava.

De ninguém eu era. Eu era de mim. (p.167)

Esta vida está cheia de ocultos caminhos. Se o senhor souber, sabe; não sabendo, não me entenderá. (p.170)

Eu não podia tão depressa fechar meu coração a ele. Sabia disso. Senti. (p.171)

Daquela mão, eu recebia certezas. Dos olhos. Os olhos que ele punha em mim, tão externos, quase tristes de grandeza. Deu alma em cara. (p.172)

A amizade dele, ele me dava. E amizade dada é amor.

"toda alegria, no mesmo momento, abre saudade" (p.173)

Passarinho cai de voar, mas bate suas asinhas no chão. (p.173)

Artes de morte e amor têm paragens demarcadas. (p.174)

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21 de outubro de 2007

Dia de desexistir


[Guimarães Rosa, sempre]

Me faltou certeza para responder a ele o que eu estava achando. Que vontade era de pôr meus dedos, de leve, o leve, nos meigos olhos dele, ocultando, para não ter de tolerar de ver assim o chamado, até que ponto esses olhos, sempre havendo, aquela beleza verde, me adoecido, tão impossível. (p.62)


Ah, se eu pudesse mesmo gostar dele - os gostares... (p.66)

Confiança - o senhor sabe - não se tira das coisas feitas ou perfeitas: ela rodeia é o quente da pessoa. (p.72)

Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. (p.80)

Bela é a lua, lualã, que torna a se sair das nuvens, mais redonda recortada. (p.89)

Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto. As pessoas e as coisas, não são de verdade! E de que é que, a miúde, a gente adverte incertas saudades? (p.100)

O mal ou o bem, estão é em quem faz; não é no efeito que dão. (p.113)

Tem horas antigas que ficam muito mais perto da gente do que outras, de recente data. (p.115)

Eu queria decifrar as coisas que são importantes.

O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe?

Ao dôido, doideiras digo. (p.116)

Tive medo. Sabe? Tudo foi isso: tive medo! (p.121)

Muita coisa importante falta nome. (p.125)

Mas, onde é bobice a qualquer resposta, é aí que a pergunta se pergunta. (p.126)

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18 de outubro de 2007

Ei, ei, aí todos esbarram.

[Guimarães Rosa]

Olhe, o que devia de haver era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem o definitivo a noção – proclamar por uma vez, artes assembléias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim davam tranqüilidade boa à gente. Por que o Governo não cuida?

(Grande Sertão: Veredas, página 31 da MINHA edição)
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