26 de agosto de 2007

Corpo de Baile


[Guimarães Rosa]

“Atrasmente, meu Mocinho: ao que Nosso Senhor, enquanto esteve cá embaixo, fez uma Santa. Vigia que essa não foi uma puras-virgens, moça-de-família, nem uma marteira senhora-de-casa, farta-virtude. Ah, ai, aí não: a que soube se fazer, a que Ele reconheceu, foi uma que tinha sido dos bons gostos – Maria Madalena...”

imagem: vanessa beecroft
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Juízo e amor, juntos, não é coisa demais?


[Guimarães Rosa]

Apertava o andar, queria se esquecer do menos mais. Aí as horas se enrolavam. Os dois caíam um no outro, se reajuntavam com fome fúria, como um fim. Alumiava-os a candeia de mamona, que aumentava o tamanho do cômodo, dependurando sombras por entre avermelhados caminhos. E cada dia eles sabiam menos um do outro, só aquele gosto airado de suas peles e calores, que se tiravam, e não cediam paz mas apontavam com tantos rumos.

imagem: Nan Goldin

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Te esqueci em azul...

[Guimarães Rosa]


Chegou o de ir. Não por fuga, nem por canseira daqui, nem por medo. Mas, o que eu sei, e seu coração sabe, é que a razão da vida é grande demais, e algum outro lugar deve de estar esperando por você...

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Cada um que se vai, foge com um pouco da gente.

{Guimarães Rosa}


“Agora é que você vem vindo, e eu já vou-m’bora. A gente contraverte. Direito e avesso... Ou fui eu que nasci de mais cedo, ou você nasceu tarde demais. Deus pune só por meio de pesadelo. Quem sabe foi mesmo por um castigo?...”

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Lélio e Lina

[Guimarães Rosa]

“O amor, minha filha, é como essa estória, que eles dizem: que pé de coité, nascendo em quintal de fazenda, dá má-sorte... Mas que não se pode cortar, mas também não se pode deixar – de qualquer jeito, que seja, fazenda que tem pé de coité dá atraso, os donos da casa sofrem”



imagem: pé de coité que vive há mais de três gerações na terrinha do meu pai...
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18 de agosto de 2007

O ron ron do Gatinho

[Ferreira Gullar]

O gato é uma maquininha
que a natureza inventou;
tem pêlo, bigode, unhas
e dentro tem um motor.
Mas um motor diferente
desses que tem nos bonecos
porque o motor do gato
não é um motor elétrico.
É um motor afetivo
que bate em seu coração
por isso ele faz ron-ron
para mostrar gratidão.
No passado se dizia
que esse ron-ron tão doce
era causa de alergia
pra quem sofria de tosse.
Tudo bobagem, despeito,
calúnias contra o bichinho:
esse ron-ron em seu peito
não é doença - é carinho.

De Um Gato Chamado Gatinho,
livro de FERREiRA GULLAR.

imagens:
Gato, Franz Marc
Jovem com gato negro - Henri Matisse

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16 de agosto de 2007

Todos los fuegos, el fuego

[Julio Cortázar]


El procónsul mira atentamente el muslo lacerado, la sangre que se pierde en la greba dorada; piensa casi con lástima que a Irene le hubiera gustado acariciar ese muslo, buscar su presión y su calor, gimiendo como sabe gemir cuando él la estrecha para hacerle daño. Se lo dirá esa misma noche y será interesante estudiar el rostro de Irene buscando el punto débil de su máscara perfecta, que fingirá indiferencia hasta el final como ahora finge un interés civil en la lucha que hace aullar de entusiasmo a una plebe bruscamente excitada por la inminencia del fin.





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13 de agosto de 2007

A Dama da Noite

[Caio Fernando Abreu]

"Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam para se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar."


"Assim: deixa a vida te lavrar a alma, antes, então a gente conversa. Deixa você passar dos trinta, trinta e cinco, ir chegando nos quarenta e não casar e nem ter esses monstros que eles chamam de filhos, casa própria nem porra nenhuma. Acordar no meio da tarde, de ressaca, olhar sua cara arrebentada no espelho. Sozinho em casa, sozinho na cidade, sozinho no mundo. Vai doer tanto, menino. Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa para te aconchegar ao meu seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas."

"A roda? Não sei se é você que escolhe, não. Olha bem pra mim - tenho cara de quem escolheu alguma coisa na vida? Quando dei por mim, todo mundo já tinha decorado a tal palavrinha-chave e tava a mil, seu lugarzinho seguro, rodando na roda.
Menos eu, menos eu."

"
Você não viu nada, você nem viu o amor. Que idade você tem, vinte? Tem cara de doze."


"
A morte é muito feia, muito suja, muito triste. Queria eu tanto ser assim delicada e poderosa, para te conceder a vida eterna. Queria ser uma dama nobre e rica para te encerrar na torre do meu castelo e poupar você desse encontro inevitável com a morte."

"A pessoa fica meio verde, sabe? Da cor quase assim desse molho de espinafre frio. Mais clarinho um pouco, mas isso nem é o pior.
Tem uma coisa que já não está mais ali, isso é o mais triste. Você olha, olha e olha e o corpo fica assim que nem uma cadeira."

"Dou, claro. Ficou nervosinho, quer cigarro? Mas nem fumar você fuma, o quê?
Compreendo, compreendo sim, eu compreendo sempre, sou uma mulher muito compreensiva."

"Estar fora da roda é não segurar nenhuma,
não querer nada."

"
Mas eu quero mais é aquilo que não posso comprar."

"Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo."


"Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas
estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado, comigo: um dia encontro."

"Divida essa sua juventude estúpida com a gatinha ali do lado, meu bem.
Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui, continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura"

"Pós-tudo, sabe como? Darkérrima, modernésima,
puro simulacro"

"Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo:
uma criança assustada."


(Extraído do livro Os Dragões Não Conhecem o Paraíso. Companhia das Letras. 1988)

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Por más completo que sea nuestro dominio sobre el otro, hay siempre una zona infranqueable, una partícula inasible. El otro es inaccesible no porque sea impenetrable sino porque es infinito. Cada hombre oculta un infinito. Nadie puede poseer del todo a otro por la misma razón que nadie puede darse enteramente. La entrega total sería la muerte, total negación tanto de la posesión como de la entrega. Pedimos todo y nos dan: un muerto, nada. Mientras el otro esté vivo, su cuerpo es asimismo una conciencia que me refleja y me niega. (PAZ apud CASTAÑEDA, 1998).
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{Serendipity, sincronicidade, coincidência, sei lá. De novo. Hoje Edceu me apresentou a Caio Fernando Abreu. Primeiro, me senti tocada. Depois tive nojo. Aí... li algo que me deixou com os olhos cheios d'água! Desesperança esperançosa. Edceu me disse que exatamente aquele mesmo texto estaria sendo encenado nessa semana, em Juazeiro. Coincidência? Vou ver. Cheguei em casa e fui procurar o texto na net. Não encontrei inteiro, mas vi um artigo interessante sobre. E o tal artigo citava o Octavio Paz... Coincidência? Ai, ai. Vida bonita. E o pior é fazer desse blog um diário. "A gente tem de temer a gente". Ou não.}

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9 de agosto de 2007

Jung

Um quinto, um terço, ou talvez metade da vida humana, se desenrola em condições inconscientes.

A consciência é como uma superfície ou película cobrindo a vasta área inconsciente, cuja extensão é desconhecida.

Os fatos, em sua realidade, podem ser bastante diferentes da imagem que a nossa consciência forma deles.

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8 de agosto de 2007

Catavento e Girassol

[Guinga e Aldir Blanc]


{Serendipity. Existe. Aqui está a prova. No Tempo da Delicadeza...}

Meu catavento tem dentro
O que há do lado de fora do teu girassol
Entre o escancaro e o contido
Eu te pedi sustenido
E você riu bemol
Você só pensa no espaço
Eu exigi duração
Eu sou um gato de subúrbio
Você é litorânea

{...}

Eu sinto muita saudade
Você é contemporânea

Eu penso em tudo quanto faço
Você é tão espontânea!

{...}
Cê tem um jeito verde de ser
E eu sou meio
vermelho
Mas os dois juntos se vão

No sumidouro do espelho
***
"como a energia se propaga?

através das ondas".


{céu}

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