2 de outubro de 2008

A noite é uma grande demora



"O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe?"

[116, GS:V - Rosa | imagem: Chema Madoz]
...

28 de setembro de 2008

É bom evitar


Amor, quanto menos ou nenhum é melhor
Porque só se vive a sofrer por amar
E quem pensar nisso hoje em dia, não terá alegria
É bom evitar

Desses carinhos não quero saber
Pra não andar só a me maldizer
É preferível viver com a paz
Porque se não faz bem, mal não faz

Não tenho nota nem faço questão
Mas tenho enfim muita satisfação
Com alegria estou muito bem
Muita gente quer ter e não tem

Ismael Silva!
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O infinito amor tem cláusulas.


Ansiavam-se, desconhecendo o desamparo de ai-de de estar-se dentro do amor mas ainda em estados de discórdia, movidos dessa guerra: como as boas cordas, se para sonoras, bem a apertarem-se; como os fundentes metais, na arte da afinagem.

*

Aqueles que Deus uniu, nem eles mesmos conseguem se separar...

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[rosa, retábulo de são nunca, 254]
imagem de Dolls (takeshi kitano)
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21 de setembro de 2008

Sobre um mar de rosas que arde


[Pedro Kilkerry]

Sobre um mar de rosas que arde
Em ondas fulvas, distante,
Erram meus olhos, diamante,
Como as naus dentro da tarde.

Asas no azul, melodias,
E as horas são velas fluidas
Da nau em que, oh! alma, descuidas
das esperanças tardias.

(imagem: alicia bock)

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15 de setembro de 2008

Natureza Viva



[Jorge Salomão]

você já sabe todos os meus segredos

agora quer minha alma mastigar

eu não sou fera

mas ainda tenho a cabeça esperta

transformo todo dia a água em vinho

bebo de bar em bar

a sede de te ter também

a se de te ter...

segredos alma corpo coração

mistérios

solto em qualquer direção

como os alimentos não param no organismo

tenho pressa

mesmo sem saber que direção tomar

sinto uma grande fome

de ter tudo na mão agora

e devorar numa rápida dentada

esta madura canção

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14 de setembro de 2008

Rosa e Ara..


”Sinto e tenho a necessidade tremenda de sentir o amor como cousa NÃO HUMANA, SUPER-HUMANA, sublime, acima de tudo merecendo todos os sacrifícios, mesmo os mais inauditos. Sempre precisei disto. Isto ou nada. ‘Ou a perfeição, ou a pândega!’ Não me satisfaria um amor burguês, morno, conformado, dosado, raciocinando sobre conveniências ou inconveniências"

”Os outros eu conheci por ocioso acaso. A ti vim encontrar porque era preciso.”

”Serás tudo para mim: mulher, amante, amiga e companheira. Sim, querida, hás-de ajudar-me, ao escrever os nossos livros. Não só passarás à máquina o que eu escrever, como poderás auxiliar-me muito. Tu mesma não sabes o que vales. Eu sei. Sei, e sempre disse, que tens extraordinário gosto, para julgar coisas escritas. Muito bom gosto e bom senso crítico. Serás, além de inspiradora, uma colaboradora valiosa, apesar ou talvez mesmo por não teres pretensões de ‘literata pedante’. E estaremos sempre juntos, leremos juntos, passearemos juntos, nos divertiremos juntos, envelheceremos juntos, morreremos juntos.”

13 de setembro de 2008

{Eu vou morrer se você não quiser me arranjar um pecadinho!}


FREVO

(TOM ZÉ - TUZÉ DE ABREU)

Esta noite não quero saber de conselho
esquece, deixe pra lá
me arranje um pecado
quente pra me consolar
pense bem que depois
tem o ano inteiro pra gente pagar

Cinqüenta gramas de amor
veja lá, é um bocadinho
vinte gramas até,
venha cá, é tão pouquinho.
Eu vou morrer se você
não quiser
me arranjar um pecadinho.

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6 de setembro de 2008

Chuva Interior



[mario chamie]

Quando saía de casa
percebeu que a chuva
soletrava
uma palavra sem nexo
na pedra da calçada.
Não percebeu
que percebia
que a chuva que chovia
não chovia
na rua por onde
andava.
Era a chuva
que trazia
de dentro de sua casa;
era a chuva
que molhava
o seu silêncio
molhado
na pedra que carregava.
Um silêncio
feito mina,
explosivo sem palavra,
quase um fio de conversa
no seu nexo de rotina
em cada esquina
que dobrava.
Fora de casa,
seco na calçada,
percebeu que percebia
no auge de sua raiva
que a chuva não mais chovia
nas águas que imaginava.

2 de setembro de 2008

Antônio Paulo, Antônio Paulo, Antônio Paulo...


Adão, Eva e Prometeu

[Mãos paralisadas pelo movimento do adeus]

A finitude é a provocação maior. Daí, a persistência em inventar deuses e religiões, em imaginar eternidades, em prolongar lamúrias.

A transcendência altera o valor do instante e acorda a possibilidade de mistérios.

Os percursos fundantes não são evidentes. O mapa não é o território e não tem como me apropriar das origens. São moradias de enigmas. Só com ilusões podemos decifrá-los. Planos de pertencimentos que vadiam fabricando deslocamentos.

O que importa é a trama. Não há mais lágrimas, se o humano não passa de uma criação discursiva (...) . Parece uma oração estranha, feita em algum filme de Antonioni.

Do cosmo e do caos, restam a ludicidade e a beleza?

Pensar a brincadeira que se recusa a ser séria revela outros tempos, para além do moderno. Os traços, os riscos, as cores, as dissonâncias garantem as travessuras e as possibilidades.

Não é simples abrir a porta e encontrar a casa vazia, quando ontem nela não cabia nem o suspiro do último visitante.

Para isso, existem as teorias: para consolidar ou enganar o nosso desejo de salvação. Para reunidos, sentirmos saudades de alguma coisa e seguirmos adiante, contando o que Ulisses não poderia contar, mas todos enamorados/enamoradas pelo tecer obstinado de Penélope.

O pior é não conhecei a história que está entranhada em cada objeto.

¹ espero não estar ferindo direitos autorais... rs
² brigada por me apresentar a antônio paulo, patrícia!
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31 de agosto de 2008

Griffonnage


[Octavio Paz, le feau de chaque jour]

Avec un morceau de charbon
avec ma craie cassée et mon crayon rouge
dessiner ton nom
le nom de ta bouche
le signe de tes jambes
sur le mur de personne
sur la porte interdite
graver le nom de ton corps
jusqu’à ce que la lame de mon couteau saigne
et la pierre crie
et le mur respire comme un sein


imagem: Bansky

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10 de agosto de 2008

Algum lugar


Vinicius de Moraes / Marília Medalha

Meu amor | Não posso mais | Viver aqui | Não tenho paz | Eu quero ir | Pra algum lugar | Pra algum lugar | Pra algum lugar | E ser feliz | Ouvir o mar | E amar

Meu amor | Vamos fugir | Vou me mandar | Não quero mais | Viver sem ar | Me poluir | Me poluir | Me poluir | Ter que me dar | Com quem não sabe | Amar

Não sei mais pr’onde ir | Pasárgada ou Shangri-lá | Será que há por aqui | Algum lugar, eu sei lá | Pra gente amar | E aquela estrela ali | Podia bem ser um bar | Pra ir é só curtir | E escalar o luar | Bem devagar

Meu amor | Tem que ser já | Eu vou sumir | Sair daqui | Vou te levar | Pra algum lugar | Pra algum lugar | Pra algum lugar | E sempre só | Você e eu | E o mar.

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9 de agosto de 2008

Carmen's Story


Elle ne voit que lui dans le studio,
Il ne voit qu'elle sur le plateau,
Et dans la foule des figurants
Habit brodé, habit clinquant,
En somnambules, au fil des jours,
Illuminés par leur amour,
Sans le savoir, transfigurés,
Ils sont Carmen et Don José,
Et quelqu'un crie : "Silence! On tourne!"
Carmen's story ! Carmen's story!

Mais dans le studio de cinéma,
Voilà qu'un jour il l'aperçoit
En train de rire, rire aux éclats
Avec cet homme qui est là-bas...
Ça lui fait mal, il veut partir...
Mais le destin doit s'accomplir
Et dans la foule des figurants
Elle est tombée, sans même crier...
Quelqu'un a dit : "Très bon ! Coupez!"
Carmen's story ! Carmen's story!

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25 de julho de 2008

Qu'est-ce-que ça peut faire


[Benjamin Biolay]

Qu'est-ce-que ça peut faire,
De savoir qu'été comme hiver,
Tu vas me manquer.

Qu'est-ce-que ça peut faire,
De savoir qu'on s'est fait la guerre,
Qu'on s'est fait la paix.

Qu'est-ce-que ça peut foutre,
Qu'est-ce-que ça peut faire.

Qu'est-ce-que ça peut faire,
Que tu jettes la tête en arrière,
Que je sois sonné.

Qu'est-ce-que ça peut faire,
Toutes ces parties de jambes en l'air,
Ces actes manqués.

Qu'est-ce-que ça peut foutre,
Qu'est-ce-que ça peut faire.

Au bout de la route,
Il n'y a qu'un désert.

Qu'est-ce-que ça peut faire,
De voir qu'tu n'as rien de mieux à faire,
Que de m'écouter.

Oh dis moi Qu'est-ce-que ça peut faire,
Qu'on oublie les prélimiaires.
Qu'on laisse allumé.

Qu'est-ce-que ça peut foutre,
Qu'est-ce-que ça peut faire.

Qu'est-ce-que ça peut faire,
Qu'il y ait cette beauté sur la terre,
Si tout dois brûler.

Oh dis moi qu'est-ce-que ça peut faire,
Qu'il y ait un solstice en hiver,
Et l'autre en été.

Qu'est-ce-que ça peut foutre,
Qu'est-ce-que ça peut faire.

Puisqu'au bout de la route,
Il n'y a qu'un désert.

Vas-y demande à la poussière.

Il y a cette lumière,
Qui ne s'éteint jamais,
Comme un Cerbère,
Aux abords de la mer.

Il y a cette lumière,
Qui ne s'éteint jamais,
Comme un révèrbère,
Comme les feux d'un loquet.

Qu'est-ce-que ça peut faire,
Qu'il y ait des stations balnéaires,
Dans mon verre à pied.

Oh dis moi qu'est-ce-que ça peut faire,
Que je te voie le ventre à l'air,
Ou les yeux cernés.

Qu'est-ce-que ça peut foutre,
Qu'est-ce-que ça peut faire.

Puisqu'au bout de la route,
Il n'y a qu'un désert.

Qu'est-ce-que ça peut foutre,
Qu'est-ce-que ça peut faire.

Puisqu'au bout de la route,
Il n'y a qu'un grand désert.
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21 de julho de 2008

Sudoeste


[Adriana Calcanhotto / Jorge Salomão]

... tenho por princípios
Nunca fechar portas
Mas como mantê-las abertas
O tempo todo
Se em certos dias o vento
Quer derrubar tudo?...

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18 de julho de 2008

Rebeca

Não era estranho o seu hermetismo. Embora parecesse expansiva e cordial, tinha um temperamento solitário e um coração impenetrável. Era uma adolescente esplêndida, de ossos largos e firmes, mas se obstinava em continuar usando a cadeirinha de balanço com que chegou à casa, muitas vezes reforçada e e já desprovida de braços. Ninguém havia descoberto que ainda nessa época conservava seu hábito de chupar o dedo. Por isso, não perdia ocasião de se fechar no banheiro, e tinha adquirido o costume de dormir com a cara virada para a parede. Nas tardes de chuva, bordando com um grupo de amigas na varanda das begônias, perdia o fio da conversa e uma lágrima de saudade lhe salgava o céu da boca quando via as faixas de terra úmida e os montículos de barro construídos pelas minhocas no jardim. Estes prazeres secretos, vencidos em outros tempos pelas laranjas com ruibarbo, irromperam num desejo irremprimível quando começou a chorar. Voltou a comer terra. Da primeira vez, fê-lo quase por curiosidade, certa de que o gosto ruim seria o melhor remédio contra a tentação. E, com efeito não pode suportar a terra na boca. Mas, insistiu, vencida pela ânsia crescente, e pouco a pouco foi satisfazendo o apetite ancestral, o gosto pelos minerais primários, a satisfação sem par do alimento original. Jogava punhados de terra nos bolsos e os comia aos grãozinhos, sem ser vista, com um confuso sentimento de felicidade e raiva, enquanto adestrava suas amigas nos pontos mais difíceis e conversava sobre outros homens que não mereciam o sacrifício de que se comesse por eles a cal das paredes. Os punhados de terra faziam menos remoto e mais certo o único homem que merecia aquela degradação, como se o chão que ele pisava com as suas finas botas de verniz em outro lugar do mundo, transmitisse a ela o peso e a temperatura do seu sangue, num sabor mineral que deixava uma cinza áspera na boca e um sedimento de paz no coração.

Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão, p. 66
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7 de julho de 2008

Ergue-te ao Sol


Madredeus

"a vida é muito mais do que a soma do que queremos"

Quando acordares, olha para mim. Quero que vejas o que eu já vi. Vi na memória de um homem bom que há muito tempo ouviu um som (que se perdeu)... Que som foi esse que aconteceu? Foi uma voz que nos chamou, nos alertou? Disse que a vida é muito mais do que a soma do que queremos (quanto mais temos). Anda comigo e sente a razão! Olha em frente e lá está o teu irmão. Dá-lhe a tua mão. Ergue-te ao Sol, brilha e canta a canção. Do que ela fala? É de uma revolução: a do coração. Quando acordares, olha para mim. Há outra vida que vive em ti - foi o que eu vi. Vi que há cá, dentro dentro de nós, alguém que canta e só se ouve se estamos sós. Quando acordares, olha para mim. Pensa que um dia vai ser diferente para toda a gente.

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2 de julho de 2008

Poema 17


Tasso da Silveira

Esquece o tempo. O tempo não existe.
Acende a chama às límpidas lanternas.
Nossas almas, a ansiar no mundo triste,
são de uma mesma idade: são eternas.

Se no meu rosto lês mortais cansaços,
é natural. A luta foi renhida:
caminhei tantos passos, tantos passos
para que te encontrasse em minha vida...

Não medites o tempo. Se muito antes
de ti cheguei, para a áspera, inclemente
sina de navegar por este mar,

foi para que tivesse olhos orantes,
e me purificasse longamente
na infinita aflição de te esparar...

imagem: gavarni

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Noturno

Tasso da Silveira
Veleiro ao cais amarrado
em vago balouço, dorme?
Não dorme. Sonha, acordado,
que vai pelo mar enorme,
pelo mar ilimitado.

Se acaso me objetardes
que veleiro não é gente
e, assim, não sonha nem sente,
sem orgulhos nem alardes
eu direi: por que haveria
de falar-vos do homem triste
mas de olhar grave e profundo
que, à amargura acorrentado
sonha, no entanto, que vive
toda a beleza do mundo?

Melhor é dizer: Veleiro...
veleiro ao cais amarrado,
sob as límpidas estrelas.
Vela branca é uma alma trêmula,
sobretudo se cai sombra
do alto abismo constelado.
Veleiro, sim, que não dorme
mas na silente penumbra
sonha, ao balouço, acordado
que vai pelo mar enorme,
pelo mar ilimitado.

imagem: Parkeharrison
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