18 de junho de 2009

Certeza


Vem-me triste, te quero
triste, sem cor, de pedra.
Qual mar de gelatina,
de bruma, de arrepio.
Bem branco, sem limites,
onde não reconheça,
nem emoção e afeto,
sem texugo e serpente.
Sê-me grande serpente
de chamas e de mármore,
não javali, não árvore.
Nada, não, não me sejas.
Beija-me e depois vai-te.
Não poderei te amar.


In: Desdesejo, de Narcís Comadira. A imagem também é dele.

14 de junho de 2009

Dia e Noite



E o tempo passava... no devagar depressa do tempo (JGR)

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*finalmente uma imagem que eu sei de quem é... Dia e Noite, Escher.


13 de junho de 2009

7 de junho de 2009

O Inocente



apenas os puros são capazes de certos excessos


Do romance "O Inocente", de Gabriele D'Annunzio, que foi adaptado pro cinema pelo Visconti.

4 de junho de 2009

Eu soube enfim que o amor está ligado a mim.


Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol


Eu soube enfim que o amor está ligado a mim.
E eu agarro esta cabeleira de mil tranças.
Embora ontem à noite eu estivesse bêbado da taça,
Hoje, eu sou tal, que a taça se embebeda de mim.

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Se busco meu coração, o encontro em teu quintal,
Se busco minha alma, não a vejo a não ser nos cachos de teu cabelo.
Se bebo água, quando estou sedento
Vejo na água o reflexo do teu rosto.

.

Sou medido, ao medir teu amor.
Sou levado, ao levar teu amor.
Não posso comer de dia nem dormir de noite.
Para ser teu amigo
Tornei-me meu próprio inimigo.

.

Teu amor me tirou de mim.
De ti, preciso de ti
Noite e dia, eu queimo por ti.
De ti, preciso de ti.

.

Não temos nada além do amor.
Não temos antes, princípio nem fim.
A alma grita e geme dentro de nós:
- Louco, é assim o amor.
Colhe-me, colhe-me, colhe-me!

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À noite, pedi a um velho sábio
que me contasse todos os segredos do universo.
Ele murmurou lentamente em meu ouvido:
- Isto não se pode dizer, isto se aprende.

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- Vem ao jardim na primavera, disseste.
- Aqui estão todas as belezas, o vinho e a luz.
Que posso fazer com tudo isso sem ti?
E, se estás aqui, para que preciso disso?

.

Sofreste em excesso
por tua ignorância,
carregaste teus trapos
para um lado e para outro,
agora fica aqui.

Na verdade, somos uma só alma, tu e eu.
Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti.
Eis aqui o sentido profundo de minha relação contigo,
Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu.

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RUMI

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http://www.sertaodoperi.com.br/poesiasufi/poesia/rumi_colet.htm


Nasrudin


Em dada ocasião, Nasrudin estava em um barco com um homem letrado, quando o Mullá disse algo que contrariava as regras gramaticais:

- Você nunca estudou gramática? - perguntou o estudioso.
- Não, nunca - respondeu Nasrudin.
- Nesse caso, metade de sua vida se perdeu - retrucou outro.
Nasrudin ficou em silêncio durante algum tempo, quando finalmente falou:
- Você nunca aprendeu a nadar? - disse o Mullá ao homem letrado.
- Não, nunca - este respondeu.
- Então, nesse caso, toda a sua vida se perdeu. Estamos afundando.

2 de junho de 2009

It is mightier than swords


[from 'get me away from here', belle and sebastian]


Ooh! Get me away from here I'm dying
Play me a song to set me free!

Thought there was love in everything and everyone
You're so naive...

At the final moment, I cried
I always cry at endings

Into the windows of my lovers
They never know unless I write
"This is no declaration, I just thought I'd let you knowgoodbye"

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* não agüento mais adoecer e ficar deprimida no crato... third time!

1 de junho de 2009

A voz do morto



[caetano veloso]

Ninguém me salva
Ninguém me engana
Eu sou alegre
Eu sou contente
Eu sou cigana

[...]

Ninguém me atende
Ninguém me chama
Mas ninguém me prende
Ninguém me engana

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22 de maio de 2009

O tempo é um barco que navega na sua própria água

(arturo)





O zero não é vazio.


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Chuchu, Hadassa e eu fomos hoje assistir a um filme que o povo da Psicologia exibiu, "o zero não é vazio". Era um documentário que falava sobre a relação que pessoas com algum tipo de distúrbio mental mantêm com a escrita. Apaixonei-me por Arturo e Leo, personagens do filme. Tabém não ficaram muito atrás o Condicionado (que se diz um industrial fabricante de história), Orlando/a, que diz "paz cura, sexo cura. cigarro é amor porque dá prazer" e a Tati, construtora da "máquina salva-vidas infindus infindus" e leitora da biografia de Paracelso. Très jolie. De quebra, ainda ouvi falar pela primeira vez do caso Aimée, do Lacan.

19 de maio de 2009


"sozinha no baiano, com um uísque numa mão e um Vogue bleu na outra, vendo, de meio olho, o movimento, e cantarolando mentalmente Borbulhas de Amor enquanto pensa sobre uma nota de rodapé para a página 13 da dissertação sobre Guimarães Rosa"

chuchumachine, sobre moi.

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16 de maio de 2009

Palavras para guardar


Pingüim. Cinqüenta. Tranqüilo. Lingüiça. Agüentar. Bilíngüe. Eqüestre. Sagüi. Seqüência. Idéia. Herói. Jóia. Colméia. Andróide. Epopéia, geléia. Platéia. Tramóia. Enjôo. Vôos. Zôo. Pêlo, pêra. Auto-escola. Auto-estrada. Anti-rugas. Contra-senso. Mini-saia. Neo-realismo.

Pára-quedas (dessa aqui a gente tem que se despedir duas vezes!)

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* Ai, que dor! Sou uma saudosista, uma reacionária da língua, como diria o Guima. Comprei o "Leite Derramado" do Chico Buarque e logo na primeira página vi joias. Sim, "jóias". Sem acento... ai, que dor. Essa reforma tirou grande parte dos sinais bonitinhos que "ornavam" nossas palavras. Que tristeza. Jóia já não tem mais seus enfeites e Idéia não tem mais sua luz.

14 de maio de 2009

Não sabemos nada da verdadeira história dos homens

Tout ce qui est intéressant se passe dans l'ombre...

On ne sait rien de la veritable histoire des hommes.

[Céline]


{no querido "O Queijo e os Vermes", agora revisitado}

9 de maio de 2009

Vem.


Vem.
Conversemos através da alma.
Revelemos o que é secreto aos olhos e ouvidos.
Sem exibir os dentes, sorri comigo, como um botão de rosa.
Entendamos-nos pelos pensamentos, sem língua, sem lábios.
Sem abrir a boca, contemo-nos todos os segredos do mundo, como faria o intelecto divino.
Fujamos dos incrédulos que só são capazes de entender se escutam palavras e veêm rostos.
Ninguém fala para si mesmo em voz alta.
Já que todos somos um, falemos desse outro modo.
Como podes dizer à tua mão : "toca", se todas as mãos são uma?
Vem, conversemos assim.
Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma.
Fecho pois a boca e conversemos através da alma.
Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo.
Vem, se te interessas, posso mostrar-te.

J. RUMI

7 de maio de 2009

Mais amores, mais amores


Freude, schoener goetterfunken,
Tochter aus elysium,
Wir betreten feuertrunken,
Himmlische dein heiligtum.
Deine zauber binden wieder,
Was die mode streng geteilt;
Alle menschen werden brueder,
Wo dein sanfter fluegel weilt.

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Absolutamente apaixonada pelo alemão! Que fique claro: o idioma. Inclusive digo sempre que o único alemão que parece querer me pegar é o Alzheimer. Bom, fato é que a professora de alemão lá do DLEM é fantástica e eu já tô doida pra me apresentar no "Canta Babel" com a ode à alegria de Beethoven numa versão Alto Xingu. Quero ter direito a maracas e danças de roda na floresta da UFPB. Pena ter faltado à aula em que ela colocou a "musiquinha" pro pessoal cantar... oh, vida dividida. Minha dificuldade em conciliar horários pra freqüentar o curso é tão grande que a primeira palavra que aprendi a dizer foi "entschuldgung"... bem sintomático, não?

PS.: ok, também já conhecia Geschichte e Zeitgeist, mas essas não valem!

S e r e n d i p i t y

VÍNHAMOS – do jamais para o sempre.

A lógica é a prudência convertida em ciência; por isso não serve para nada. Deixa de lado componentes importantes, pois, quer se queira quer não, o homem não é composto apenas de cérebro. Eu diria mesmo que, para a maioria das pessoas, e não me excetuo, o cérebro tem pouca importância no decorrer da vida. O contrário seria terrível: a vida ficaria limitada a uma única operação matemática, que não necessitaria da aventura do desconhecido e inconsciente, nem do irracional. (ROSA, 1995, p. 57)

Como a pedra, de asas inutilmente ansiosa.

Sionésio e Maria Exita – a meios-olhos, perante o refulgir, o todo branco.
Acontecia o não-fato, o não-tempo, silêncio em sua imaginação. Só o
um-e-outra, um em-si-juntos, o viver em ponto sem parar, coraçãomente:
pensamento, pensamor. Alvor. Avançavam, parados, dentro da luz, como
se fosse no dia de Todos os Pássaros.

O esquecimento é voluntária covardia.

“Saudade – um fogo enorme, num monte de gelo”

Fim não fim: repete antecipadamente meu único momento?

Guimarães Rosa.

5 de maio de 2009

Ér, érr, éérrr, Paul Ricoeurrrrr...


“A errância do navegador não clama menos por seus direitos que a residência do sedentário. Claro, meu lugar é ali onde está meu corpo. Mas colocar-se e deslocar-se são atividades primordiais que fazem do lugar algo a ser buscado. Seria assustador não encontrar nenhum. Seríamos nós mesmos devastados”


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“É nos confins do espaço vivido e do espaço geométrico que se situa o ato de habitar”


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“Quanto ao ato de construir, considerado como uma operação distinta, ele faz prevalecer um tipo de inteligibilidade de mesmo nível que aquele que caracteriza a configuração do tempo pela composição do enredo. Entre o tempo “narrado” e o espaço “construído”, as analogias abundam. Nem um nem outro se reduzem a frações do tempo universal e do espaço do geômetra”


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“A operação historiográfica procede de uma dupla redução, a da experiência viva da memória, mas também a da especulação multimilenar sobra a ordem do tempo”


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* Estou totaly in love with Paul Ricoeur... entrei em contato com ele pela primeira vez quando vi Patrícia se debatendo com “A memória, a história, o esquecimento” lá em Recife. Me arrisquei a ler umas páginas. Achei difícil, mas me interessei. No primeiro dia de aula de teoria, Regina perguntou quem gostaria de apresentá-lo e eu [muito desajuizada e ousadamente] me ofereci. E eis-me aqui. Estamos entre tapas e beijos: sofro, me apaixono, suspiro: não compreendo totalmente, mas sinto. É às vezes quase poesia. Tenho – estranhamente – me relacionado melhor com os trechos sobre espaço que com aqueles sobre tempo. Acho que é porque o tempo é uma matéria muito mais complexa e delicada (puxando brasa pra minha sardinha). E durante este “espaço de tempo” venho namorando com o livro; devo comprar o original. A professora Rosa disse com aquele jeito de falar inimitável que o Paul Ricoeur seria útil pra mim... ela está lendo o “Tempo e Narrativa” e falou que vai demorar uns quatro anos pra mastigar bem os três volumes! Imagine eu, pobre mortal. Será que bastaria entender com o coração? Veremos. Serão cenas dos próximos capítulos (da dissertação? rs).

25 de abril de 2009

Com qualquer dois mil réis

[Novos Baianos]
Você é incapaz de matar uma muriçoca...
Mas como tem capacidade de mexer meu coração!
E o malandro aqui, com qualquer dois mil réis, põe em cima uma sandália de responsa e essa camisa de malandro brasileiro, que me quebra o maior galho!
E o resto é comigo, porque a pinta que se toca quando você se chega...
Só porque você chega...
Sem nada, como eu!
E esse ano não vai ser igual àquele que passou,
oh que passou!
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* gente, tô com problemas pra postar imagens no blog... oh, vida!

24 de abril de 2009

existe um indefinível "je ne sais quoi" nos gatos



(...) existe um indefinível je ne sais quoi nos gatos, um misterioso quê cujo fascínio a humanidade já sentia nos tempos dos antigos egípcios. Sentimos uma inteligência quase humana por trás dos olhos de um gato. E, às vezes, confundimos o uivo de um gato, à noite, com um grito humano, arrancado de alguma parte profunda, visceral, da natureza animal do homem. Os gatos atraíram poetas como Baudelaire e pintores como Manet, que desejavam expressar a humanidade existente nos animais, juntamente com a animalidade do homem - e, especialmente, das mulheres.


DARNTON, Robert. O Grande Massacre dos Gatos.


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22 de abril de 2009

Essa moça tá diferente

[chico, sempre!]

Essa moça tá diferente
Já não me conhece mais
Está pra lá de pra frente
Está me passando pra trás
Essa moça tá decidida
A se supermodernizar
Ela só samba escondida
Que é pra ninguém reparar
Eu cultivo rosas e rimas
Achando que é muito bom
Ela me olha de cima
E vai desinventar o som
Faço-lhe um concerto de flauta
E não lhe desperto emoção
Ela quer ver o astronauta
Descer na televisão
Mas o tempo vai
Mas o tempo vem
Ela me desfaz
Mas o que é que tem
Que ela só me guarda despeito
Que ela só me guarda desdém
Mas o tempo vai
Mas o tempo vem
Ela me desfaz
Mas o que é que tem
Se do lado esquerdo do peito
No fundo, ela ainda me quer bem

Essa moça é a tal da janela
Que eu me cansei de cantar
E agora está só na dela
Botando só pra quebrar

...

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[em homenagem ao scrap que loren me mandou e à moça aqui, que tá diferente!]

21 de abril de 2009

Esse cara

[caetano]

Ah! Esse cara
Tem me consumido
A mim e a tudo que quis
Com seus olhinhos infantis
Como os olhos de um bandido

...

20 de abril de 2009

Queda que as mulheres têm para os tolos

{Machado de Assis}


(...) como nos tolos tudo é superficial e exterior, não é o amor um acontecimento que lhes mude a vida.

Elas querem amor, qualquer que seja a sua natureza, e o que o tolo lhes oferece é-lhes bastante, por
mais insípido que seja.


I

Il est des noeuds secrets, il est des sympathies.

Passa em julgado que as mulheres lêem de cadeira em matéria de fazendas, pérolas e rendas, e que, desde que adotam uma fita, deve-se crer que a essa escolha presidiram motivos plausíveis.

Partindo deste princípio, entraram os filósofos a indagar se elas mantinham o mesmo cuidado na escolha de um amante, ou de um marido.

Muitos duvidaram.

Alguns emitiram como axioma, que o que determinava as mulheres, neste ponto, não era, nem a razão, nem o amor, nem mesmo o capricho; que se um homem lhes agradava, era por se ter apresentado primeiro que os outros, e que sendo este substituído por outro, não tinha esse outro senão o mérito de ter chegado antes do terceiro.

Permaneceu por muito tempo este sistema irreverente.

Hoje, graças a Deus, a verdade se descobriu: veio a saber-se que as mulheres escolhem com pleno conhecimento do que fazem. Comparam, examinam, pesam, e só se decidem por um, depois de verificar nele a preciosa qualidade que procuram.

Essa qualidade é... a toleima!